11.Análise de jogo

2018-12-10T10:56:03+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

Diversos pesquisadores, em especial na escola portuguesa, criaram métodos de análise dos jogos de futebol, alguns vinculados a números de scout, com equações cruzando dados para estabelecer diagnósticos. Não cabe aqui, entretanto, descrever estes métodos – alguns deles já obsoletos, servindo apenas à curiosidade sobre a evolução do estudo científico do futebol, sem aplicação útil na prática. Basta saber que é uma ciência em constante evolução, com grande repertório/precedente bibliográfico.

Em resumo, a base da análise chega a um óbvio consenso: observar e anotar. É o que diz o professor-doutor Júlio Garganta:

Quando se pretende analisar o conteúdo de um jogo é necessário observá-lo, para anotar ou registrar as informações consideradas pertinentes”.

Ou seja, não existe analista de melhores momentos. Se estiver com pressa, não faça. Ninguém chega a conclusões em 10 minutos. É preciso assistir ao jogo completo – se a análise é específica deste confronto – ou pelo menos entre dois a três jogos completos (quanto mais melhor) para se reunir um bom volume de informações.

Por quê? Ora, porque já foi exaustivamente repetido que o mantra da análise de jogos desportivos é “identificar padrões de comportamento”. Estes padrões, coletivos e individuais, em todos os momentos de organização da equipe (ataque, defesa, transições e bolas paradas) revelam as diretrizes do modelo de jogo, permitindo assim identificar e interpretar as ideias aplicadas pelo técnico e sua comissão a partir dos treinamentos.

E em 10 minutos, com pressa, ninguém consegue uma amostragem suficiente para identificar padrões. Analisar melhores momentos abre margem para erros de análise. Vale lembrar que análise tática não é opinião, é informação. O analista, após exaustiva observação, anotação e interpretação dos comportamentos e dados, reúne as informações relevantes e transmite (seja no clube, seja na imprensa, seja nas redes sociais) ao seu público-alvo.

Não há espaço para o “eu acho”, e principalmente, não há espaço para o “eu prefiro”. Opinar demais, achar demais, contamina a análise e a torna um artigo, impreciso. Além do vício pela opinião, a pressa também provoca erros ao se confundir posicionamentos e movimentos. Identificar as peças fora de lugar no sistema tático que compromete a análise dos movimentos.

Isto é um erro de informação, tomando o movimento pelo posicionamento. Recentemente vi um time distribuído no 4-2-3-1 ser descrito como sistema de três zagueiros porque na saída de bola um volante recuava para fazer o primeiro passe na linha dos defensores.

Não eram três zagueiros, mas sim uma linha defensiva de quatro jogadores, com – por vezes – o recuo de um dos volantes para realizar a construção inicial, projetando assim os dois laterais ao mesmo tempo no campo ofensivo. Movimento conhecido por “saída de 3”e, por sinal, cada vez mais difundido para dar espaço e tempo ao volante na construção, evitando a pressão e organizando de frente para o campo ofensivo.

Ainda segundo Garganta, “a análise do jogo permite interpretar a organização das equipes e das ações que concorrem para a qualidade do jogo; planificar e organizar o treino; estabelecer planos táticos adequados em função do adversário; e regular o treino“. Isto, claro, no âmbito dos clubes. Na imprensa e na internet em geral (sites, blogs e redes sociais) serve para a difusão de conhecimento, para o aprofundamento do debate e para a veiculação de informações mais qualificadas.

A anotação se dá, primariamente, com o velho papel e caneta. Durante muitos anos não assisti a um único jogo sem ter o bloquinho e a esferográfica por perto. Vai observando, vai identificando, vai colocando no papel – posicionamentos iniciais (configurando, na soma, o sistema tático) movimentos que se repetem, sincronias e interações entre os jogadores, comportamentos coletivos, de pequenos grupos ou individuais.

Tudo vai para o papel. E, se a ideia é ilustrar o texto com frames do jogo (ou com um vídeo editado), cabe anotar também os minutos de incidência dos lances que chamaram atenção, para facilitar a prospecção futura das imagens.

Esta análise observacional e notacional pode ser quantitativa ou qualitativa. A quantitativa traz os números de scout, é absolutamente precisa e objetiva, associada às ações técnicas individuais na maior parte das vezes; já a qualitativa refere-se a comportamentos e movimentos, padrões mais complexos e, portanto, mais ligados à análise coletiva, interpretativa.

O ideal é que ambas caminhem juntas. Assim como é impossível ser “comentarista de melhores momentos”, também não é possível analisar um jogo sem assisti-lo com base nos scouts, por mais detalhados que eles sejam; no entanto, estes dados são importantes para endossar comportamentos táticos identificados na observação das imagens, incrementando a análise e explicando o porquê de movimentos se repetirem – ou o resultado da repetição destes movimentos.

Mais recentemente, inúmeras empresas especializadas em análise de performance/desempenho têm surgido no mundo oferecendo avançados serviços de vídeo e scouting. Boa parte delas já entrega ao clube contratante uma “pré-análise”, cruzando os dados de scout com os comportamentos táticos, o que facilita o trabalho do analista que pode dedicar seu tempo a interpretar, realizar diagnósticos e transmitir à comissão as informações sem se ater a trabalhos braçais como a prospecção dos dados de scout (chamada “medição) ou o corte de vídeos.

Há ainda softwares que conciliam protocolos de scout e de edição de vídeo. Cada lance anotado na medição gera um corte automático na linha do tempo do vídeo, o que pode ser feito simultaneamente no jogo, separando assim – conforme os eventos listados no protocolo – os lances por fundamento e por jogador, agilizando a busca pelas imagens. Algumas das empresas de scouting geram documentos compatíveis com estes programas de vídeo, com o mesmo propósito – cortar automaticamente o jogo, separando eventos e jogadores em linhas do tempo distintas.

Outros softwares servem como organização e apresentação dos dados de scout. É preciso abastecê-los com os scouts (produzidos pelo próprio clube ou contratados de uma empresa terceirizada) para que as informações sejam mais rapidamente processadas, apresentando os números de forma clara e permitindo diversos cruzamentos de dados para geração de planilhas customizadas conforme o usuário deseja no momento, no chamado sistema de “cubo”.

Mais um serviço, avançado e em crescimento no futebol mundial, é a análise de métricas. Estas métricas reúnem dados de scout em conjuntos que atendem a cálculos baseados em teorias estatísticas aplicadas ao futebol.

Para isso, o scout deve ser extremamente complexo, confiável e preciso – inclusive no tempo exato de execução de cada ação, além da coleta de desdobramentos de cada fundamento. A cada passe, por exemplo, dizendo o autor e o receptor, a direção (para frente, para o lado, para trás), a localização exata de ambos – autor e receptor – no campo (coordenadas X e Y), o comprimento (em metros, definindo o que é curto, médio ou longo), o tipo (rasteiro, por cima, de cabeça, etc) além do segundo exato de saída e de chegada da bola.

Estas métricas, conforme as demandas da comissão técnica, podem apresentar dados sobre os quadrantes do campo onde a circulação de passes é mais rápida (ou mais lenta), onde é mais precisa, onde é mais objetiva (passes para frente), assim como – aplicadas a itens defensivos como roubadas, interceptações, etc – podem ajudar a entender quanto tempo o time leva para roubar a bola, qual o grau de eficiência nos desarmes em cada quadrante…tudo isto aplicado à própria equipe e aos futuros adversários.

Este trabalho de métricas aponta tendências (padrões de comportamento, portanto), permitindo fazer projeções amparadas em dados concretos. Na análise de determinado adversário, gerando os cálculos de acordo com os scouts das partidas anteriores dele, é possível identificar tendências ofensivas e defensivas, como por exemplo em qual quadrante a pressão defensiva é menor, o que pode auxiliar a comissão técnica a encontrar caminhos mais vulneráveis.

Os matemáticos/estatísticos responsáveis pelo cálculo destas métricas podem ainda criar parâmetros de rendimento – metas a ser atingidas pelo time a cada partida, com base no próprio desempenho anterior e nos números alcançados pelos times de ponta no mundo. Cabe ao analista, novamente, reunir estes dados precisos e objetivos, interpretá-los conforme o modelo de jogo das equipes (a própria e os adversários) e apresentar diagnósticos à comissão sobre os motivos táticos/comportamentais que levam àqueles números.

Ligando os pontos entre este parágrafo e o anterior, após assistir ao maior número possível de jogos, o analista encontra o porquê da pressão mais baixa exercida pelo adversário em determinado quadrante (algum comportamento individual e/ou coletivo determinante) – é o número incrementando e dando subsídios à análise, à observação.

Além do mantra “identificar padrões de comportamento”, a análise de desempenho também entoa o “futebol é a ocupação inteligente dos espaços relevantes“. Afinal, apenas um dos 22 jogadores pode ser o portador da bola, os outros precisam ocupar espaços em relação com os companheiros e os oponentes, identificando a cada fração de segundo qual decisão está de acordo com o modelo de jogo, frente a todas as possibilidades que se apresentam.

Diz Garganta: “estudos descritivos têm apontado que, na maior parte do tempo útil de jogo, tanto o jogador quanto a equipe jogam sem ter a posse da bola. Dos noventa minutos regulamentares, em média, um jogador e uma equipe passam, respectivamente, 97% e 50% do tempo sem a bola”.

Um bom caminho para se criar um método é fazer uma analogia entre a metodologia observacional aplicada ao futebol e o lead (ou lide), que busca condensar na abertura das matérias jornalísticas respostas às seguintes perguntas: o quê? quem? onde? quando? como? e por quê?

Segundo o professor Israel Teoldo Costa, no artigo “Análise e avaliação do comportamento tático no futebol” todos estes sistemas modernos de observação e análise de jogo procuram responder às seguintes questões sobre as ações no jogo:

– quem executa a ação?
– qual ação é realizada?
– como a ação é realizada?
– que tipo de ação é realizada?
– onde a ação se realiza?
– quando a ação se realiza?
– qual é o resultado da ação?

Logicamente, estas perguntas precisam ser respondidas com base em critérios  teóricos/científicos. Não se pode analisar um jogo, uma equipe ou um jogador, com base em determinados conceitos, e na partida seguinte utilizar outras referências – correndo o risco de criar diagnósticos diferentes para duas situações absolutamente iguais, ou vice-versa. Estudar, adquirir conhecimento, praticar com base em critérios, e assim evoluir a ponto de conseguir responder às questões relacionadas pelo professor Israel é fundamental.

Retorno às palavras do professor Teoldo para reforçar a ideia na busca pela criação de um método pessoal de análise que esteja de acordo com os conceitos teóricos, estabelecendo critérios claros e cruzando as informações com o contexto de cada partida ou situação:

Acrescenta-se a isso a necessidade de qualificar os dados quantitativos, ou seja, de avaliar as ações no contexto em que elas ocorrem. A possibilidade de avaliar os dados decorrentes de uma partida de acordo com o modelo de jogo da equipe e os conteúdos desenvolvidos nos treinamentos oferece vantagem para a contextualização do desempenho, pois permite conhecer as ações dos jogadores de acordo com um conjunto de referências que conferem ou que deixam de dar sentido aos comportamentos adotados. Deste modo, é possível aceder à comparação entre o desempenho ideal e o desempenho efetivo do jogador e da equipe”.

Por exemplo, ao analisar-se o momento ofensivo de uma equipe um dos enfoques pode ser no princípio do apoio. As ações táticas exigidas pelo apoio são: aproximação dando linha de passe, criação de triângulos e superioridade numérica, entre outros. Desta forma, o analista pode diagnosticar se o portador da bola, nas fases de preparação/criação, recebe ofertas de linhas de passe próximas, se a equipe cria triângulos (e de que forma se dão estes triângulos, compostos por quem, em que parte do campo), e se existe busca pela superioridade numérica no setor.

Quanto mais informações são reunidas a respeito de cada princípio de jogo referente a cada momento, mais comportamentos são identificados e interpretados, e mais diagnósticos, realizados. O que pode ser obtido fazendo as perguntas certas ao jogo, para obter as melhores respostas.

Em geral, o analista iniciante prende-se demasiadamente ao posicionamento inicial (o sistema tático). Além da ênfase nos sistemas, existe também a ânsia pela opinião, pelo “certo ou errado”, e pela projeção (tentar adivinhar escalações e sistemas e “sugerir” quais seriam os mais efetivos, ignorando-se que o papel tudo aceita, que não existe certo ou errado no futebol, e que tudo pode dar certo se for bem treinado e bem executado).

O que, na imprensa e nas redes sociais, movimenta mais a interatividade – mesmo que seja uma interatividade menos qualificada, por vezes “raivosa” e folclórica. Análise superficial, opinião e predição são problemas comuns que vão se abandonando à medida que aumenta o entendimento do jogo. Afinal, análise é informação.

Saber comunicar é essencial. Se, obviamente, carecer de conhecimento sobre teoria tática inviabiliza o trabalho sério, não saber transmitir a informação provoca inúmeros problemas. Compreender o jogo e saber manipular o aparato técnico cada vez mais complexo cria uma demanda não menos importante ao profissional da área: ser compreendido.

A mensagem precisa chegar de forma simples e objetiva, desde a escolha das melhores imagens até a correção na linguagem e a clareza do conteúdo. Afinal, analisar também é comunicar – a não ser que o consumo seja restrito ao próprio analista.

É o que diz o professor Rodolfo Nakamura no artigo “Público-alvo: afinal, o que é isso?”, direcionado a comunicadores e, portanto, oportuno aos analistas. Afinal, como já vimos, o processo de análise é necessariamente um processo de comunicação:

“Neste sentido, é importante levar-se em consideração os aspectos culturais do destinatário. Afinal, dependendo da linguagem a ser utilizada (código) ou ainda da forma como será transmitida (simbologia/signos de comunicação) poderá haver maior eficácia e até mesmo maior eficiência na comunicação”.

Em seis anos como analista de desempenho de um grande clube brasileiro – quatro deles coordenando o setor – entrei em contato com diversos treinadores e jogadores, cada um deles falando um “dialeto” diferente. Para um treinador, determinada função chamava-se “falso-ponta”; para outro, apenas “ponta”; e chega o próximo falando “extremo”. Todos utilizando palavras diferentes para descrever a mesma tarefa desempenhada na mesma região do campo.

O que fazer? Adaptar-se. O importante é o conteúdo. A linguagem é uma ferramenta para se fazer melhor compreendido. O analista precisa decodificar o “dialeto” do treinador, que é o idealizador do modelo de jogo e, portanto, quem lidera seu desenvolvimento, para comunicar-se em sintonia com ele.

Vale o mesmo para os vídeos de feedback e de análise dos adversários: um treinador pede os lances em ordem cronológica, outro que se divida conforme os momentos do jogo; um gosta de determinado tipo de marcações, outro pede moderação; um abre espaço para que o analista participe das exposições coletivas, outro quer que ele apenas entregue o conteúdo e “desapareça”, sem ser notado pelos jogadores…adaptar-se é a chave da sobrevivência.

Além disso, cada jogador apresenta um cenário diferente, mais ou menos familiarizado com as terminologias e processos, e também é importante na hora de entregar um conteúdo individualizado atendê-lo da forma com que ele se sinta mais seguro.

Se você analisa para alguém, precisa fazê-lo compreender a mensagem, e a prerrogativa deste entendimento é do emissor, nunca do receptor. O mesmo vale para jornalistas/blogueiros, o mesmo vale para analistas de desempenho: conhecimento teórico, domínio das ferramentas, adaptabilidade frente às constantes inovações (na teoria e nas ferramentas) e capacidade de se comunicar com clareza e objetividade, entregando um produto de qualidade.

Deixe um comentário