5.Organização Ofensiva

2018-12-10T11:03:04+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

Encontrei diversas referências teóricas, sempre em maior profusão entre autores portugueses formados pela Universidade do Porto, sobre a Organização Ofensiva no futebol, atendendo à divisão do jogo em quatro momentos – o ofensivo, o defensivo e as transições ataque-defesa e defesa-ataque – que, sob a perspectiva de cada equipe, alternam-se constantemente em função da posse de bola.

O professor José Manuel Fernandes de Oliveira, autor de diversos livros e artigos, conceitua a Organização Ofensiva da seguinte forma:

O momento de organização ofensiva se caracteriza pelos comportamentos que uma equipe assume quando tem a posse de bola, tendo por objetivo a preparação e a criação de situações ofensivas com o intuito final de marcar gol”.

Não deixa de ser a elaboração teórica de uma obviedade – afinal, quem tem a bola pensa em progredir no campo adversário para fazer gols – mas no futebol as obviedades também precisam ser ditas e enfatizadas.

Mas existe ainda uma subdivisão deste momento, em outras quatro partes, também consideradas pelos autores portugueses.

Vasculhando artigos de professores, treinadores e alunos de mestrado/doutorado da Universidade do Porto, deparei com esta citação do técnico Pedro Caixinha, na tese de doutorado publicada em 2012 por Hugo Miguel Borges Sarmento, sobre análise de jogo no futebol:

Eu digo que existem quatro fases dentro da organização ofensiva: a primeira fase que é a de construção, a segunda fase é de preparação, a terceira é de criação e a quarta é de finalização. Então procuro, por exemplo, ainda fazer uma subdivisão dentro da primeira fase, ou é construção curta ou é construção longa”.

Muitos destes autores portugueses amparam-se nos textos do francês Claude Bayer, teórico que descreveu os princípios operacionais do jogo de futebol – no livro “O ensino dos desportos coletivos” –  enumerando três na fase ofensiva:

  1. Manutenção da posse de bola: no futebol, o gol não acontece por acaso. Antes de levar a bola até à baliza adversária, é preciso ter a sua posse. A manutenção cuidada da posse de bola não só eleva a capacidade de condução da mesma até à baliza adversária, como o adversário é obrigado a jogar em reação para conseguir recuperar a sua posse;
  2. Progressão até ao campo adversário: logicamente, se a baliza está no campo adversário, é até o espaço adversário para onde a equipe deve transportar a bola. Como só é possível fazer ponto se a bola for ao encontro da baliza, então é preciso fazer a bola chegar até perto da baliza para tentar fazer o gol.
  3. Finalização: é considerada uma das três etapas do processo ofensivo. É a etapa mais curta, mas que apenas se concretiza se as duas outras etapas forem bem realizadas. Apenas 2% do processo ofensivo termina com o remate à baliza por parte de uma equipe.

Antes dos Princípios Operacionais vêm os Gerais – que referem-se à busca pela superioridade numérica. No livro “Para um futebol jogado com idéias”, o professor-doutor Israel Teoldo organiza de forma didática e completa os princípios, pela ordem – gerais, operacionais e fundamentais. Os gerais são transversais a qualquer fase do jogo, e pedem o seguinte: “buscar superioridade numérica, evitar igualdade numérica, e não permitir inferioridade numérica”.

Uma questão importante para mim, entretanto, diz respeito aos princípios fundamentais elaborados pelo renomado professor Teoldo e sua equipe de parceiros nacionais e internacionais: as nomenclaturas são muito abstratas e “gramaticais”, afastando-se dos termos empregados no futebol, com os quais estamos familiarizados, e por vezes até mesmo conflitando com o que sempre se empregou. São eles, de forma resumida:

Penetração: o portador da bola conduz para a frente;

Cobertura Ofensiva: apoio oferecido no centro de jogo (raio de 9,15m no entorno da bola) ou fora dele, em um espaço delimitado entre linha da bola e o limite anterior do centro de jogo na direção da jogada;

Mobilidade: movimentação entre o último defensor e a linha de fundo;

Espaço: movimentação fora do centro de jogo entre a linha da bola e a do último defensor; ou a condução do portador para o lado ou para trás;

Unidade Ofensiva: movimentação fora do centro do jogo, atrás da linha da bola ou no lado contrário à jogada.

Nesta fase de organização ofensiva, por exemplo, o princípio de mobilidade descrito por Teoldo – na prática, no popular – trata da profundidade, enquanto o termo “mobilidade” sempre foi empregado para descrever jogadores com capacidade de se movimentar com boa dinâmica. Enfim, não estou questionando o trabalho fantástico do professor Teoldo, mas prefiro trabalhar com outras nomenclaturas.

Neste aspecto, o brasileiro Rodrigo Aparecido Azevedo Leitão, doutor em Ciência do Esporte e autor de mais de 200 artigos sobre o tema, trabalha com termos mais comuns ao futebol, criando com facilidade uma analogia entre a teoria e a prática, nestes princípios que ele chama estruturais, e não fundamentais. Existem ainda outros autores e/ou treinadores propondo diferentes nomenclaturas. O importante é estabelecer um critério, uma referência, e a minha é o trabalho desenvolvido pelo Rodrigo Leitão.

Segundo Leitão, “(…) grande parte (senão todas) das referências do jogo de futebol, discutidas na literatura (sob os nomes de princípios, estruturas ou meios táticos) correspondem a uma intenção evidente de, com bola, tornar grande o espaço de jogo, com jogadores bem espalhados, gerenciando e atuando sobre o maior espaço possível, disponíveis para receber a bola, com boa movimentação e o gol como foco; e sem bola, tornar pequeno o espaço de jogo, com jogadores próximos, para se ajudarem e para diminuírem as linhas de passe adversárias, e com uma movimentação que desorganize o mínimo possível o sistema defensivo (e que não devesse perder nunca, a meta ofensiva como foco (…)”.

Dentro desta ideia de ocupação de espaços no campo ofensivo, quando em posse de bola, para organizar-se coletivamente de forma inteligente em busca do gol, Leitão identificou sete princípios estruturais, descritos por Eduardo Toledo Frattini em artigo publicado no livro “Futebol – ciências aplicadas ao jogo e ao treinamento”. São as “regras táticas” que o treinador estabelece aos seus jogadores, para que haja um sentido de unidade na ação coletiva.

Eles servem de referência aos jogadores com o objetivo de otimizar a ocupação de espaços no campo ofensivo tendo como um dos principais objetivos “abrir o campo”, e consequentemente, abrir espaços/causar desordem na estrutura defensiva adversária. São eles:

  1. Amplitude: é a distância entre os jogadores da equipe que estão mais próximos das linhas laterais. A amplitude pode ser conquistada com dois extremos/pontas jogando bem abertos, ou então os dois laterais ultrapassando ao mesmo tempo, ou ainda o extremo de um lado e o lateral de outro.Na imagem abaixo vemos o Manchester City da temporada 2017/18 trabalhando um conceito bastante comum às equipes treinadas pelo espanhol Pep Guardiola. Partindo do sistema 4-3-3, ele mantém os dois “extremos” abertos e adiantados, oferecendo amplitude máxima simultânea:

    A amplitude permite ao time com posse, se não houver possibilidade de progressão imediata em direção ao gol, manter o controle da bola apenas trocando o lado do ataque. Esta troca de corredor pode ser com circulação de passes, de pé em pé, levando a bola de um lado ao outro; pode ser com uma inversão em passe longo de um lado a outro; ou ainda em diagonal, quando a bola sai do campo de defesa para o lado oposto no ataque, encontrando o jogador que oferece amplitude.

    Abaixo, em mais uma figura, o mesmo Manchester City se beneficia da amplitude máxima simultânea ao fazer a inversão em diagonal longa para o extremo oposto, que estava “pisando na linha lateral” pacientemente à espera deste lançamento. Esta manobra permite ao extremo receber em condições de partir para cima do marcador, com as linhas adversárias alargadas e, consequentemente, sem coberturas próximas:

  2. Penetração: é quando um jogador da ação ofensiva, tendo a bola ou sendo uma opção de passe, progride em direção ao gol. Acredito que o termo infiltração seja um sinônimo apropriado quando a penetração ocorre sem a bola, e o termo condução quando ocorre pelo portador. Nas imagens abaixo, observamos os dois exemplos aplicados pelos jogadores do Manchester City treinados por Guardiola na temporada 2017/18, o primeiro deles na penetração com bola, e o segundo sem:
  3. Profundidade: é a distância entre o jogador mais adiantado e o gol adversário. Quanto mais próximo, mais profundidade o time conquistou na ação ofensiva. Este movimento acaba baseando a linha defensiva rival, “empurrando-a” para trás e assim criando espaços a equipe ocupar o campo adversário, como pode se perceber na imagem abaixo:
  4. Mobilidade: o nome se basta para descrever – é a capacidade que os jogadores sem a bola têm de se movimentar inteligentemente para criar espaços, ocupá-los e assim desestruturar a defesa. Em geral esta mobilidade observa-se nos espaços entre as linhas adversárias, o que no futebolês convencionou-se chamar de “flutuação”, como vemos o meia belga Kevin De Bruyne executando pelo City em partida da temporada 2017/18:
  5. Apoio: é a oferta de linhas de passe ao portador da bola, o que pode acontecer em aproximações – consagrando os termos “triangulação” e “jogo apoiado”- ou até mesmo distante do portador. Basta, para isso, que ele se desmarque, e assim exista uma trajetória possível da bola entre o autor e o receptor do passe.No futebolês, “ver e ser visto” ou então “fazer contato visual” entre ambos. Na imagem abaixo temos o exemplo de muitas ofertas de passe ao portador, pelo City, ou seja, muito apoio ao portador:
  6. Compactação ofensiva: é a capacidade de agrupar jogadores na fase ofensiva. A equipe precisa se movimentar de forma coordenada e sincronizada, agindo como um “organismo vivo”. E, quando progride ao campo adversário, aqueles que estão mais afastados da ação devem acompanhar o movimento, “subindo em bloco” e assim encurtando a distância entre eles e os companheiros mais próximos da área adversária – como fazem os zagueiros do City nesta imagem:
  7. Ultrapassagem: outro termo que se basta. É quando um companheiro ultrapassa a linha do homem com a bola, dando opção imediata de passe à frente – movimento que é bastante observado nos lados do campo quando o lateral ultrapassa o extremo com a bola, para receber e chegar à linha de fundo. Estamos muito habituados com este movimento no Brasil, um país cujo futebol sempre se baseou em laterais ofensivos, velozes e agressivos nas ultrapassagens em amplitude para receber à frente e chegar à linha de fundo. Nesta imagem observamos o lateral Walker, do Manchester City temporada 2017/18, reproduzindo uma ultrapassagem:

É importante destacar que cada treinador vai organizar estas regras táticas como lhe convém. Cabe ao analista identificar estes padrões estabelecidos dentro do modelo de jogo, principalmente quando se observa um futuro adversário, fazendo as perguntas certas para obter respostas:

Há amplitude, mas quem a oferece? Em que parte do campo? Em que fase da progressão? Com qual objetivo? Ela se estabelece nos dois lados, ou apenas no setor da bola? E a profundidade, se dá com que jogador sob que circunstâncias? Observam-se ultrapassagens? De que forma? Quais os agentes da mobilidade, como estes movimentos se coordenam, em que partes do campo/fases da progressão? A partir da metodologia observacional pergunte ao jogo, seguindo critérios teóricos claros, e obtenha as respostas.

No que diz respeito aos estilos de jogo ofensivo – também chamados métodos – podemos relacionar pelo menos três:

o ataque posicional: a equipe organiza-se para manter a posse de bola no campo ofensivo, distribuindo seus jogadores de forma a criar rupturas nas linhas defensivas adversárias e assim progredir ao gol, sem abdicar da bola em seu domínio, e sem pressa para finalizar;

o ataque rápido: busca-se a rápida criação de oportunidades de gol, seja a partir da roubada da bola – uma transição ofensiva, portanto – como em organização, sendo mais objetivo e vertical, e sem supervalorizar a posse de bola;

o ataque direto: passes longos direcionados aos atacantes, em profundidade para a progressão veloz ou pelo alto para disputas físicas e vitórias na sobra – jogo de 1ª e 2ª bola, passando muitas vezes da fase de construção diretamente à de finalização.

Entretanto, também há divergências entre teóricos e práticos nestas nomenclaturas. A terminologia “ataque posicional”, em função da difusão do conceito de “jogo de posição” – a partir do êxito das equipes de Pep Guardiola – causa confusão. Superficialmente, pode-se dizer que o ataque posicional é o jogo de posição praticado apenas no terço final, enquanto o jogo de posição se dá desde a construção, incluindo o goleiro.

Em todo caso, vale destacar que a fase de organização ofensiva pode apresentar equipes com estilos diversos destes três listados. Há muitos times que jogam com posse ofensiva – portanto, sem ser ataque rápido ou direto – que não necessariamente se organizem posicionalmente.

Existem ainda outros aspectos importantes na hora de se analisar a organização ofensiva de uma equipe, além dos princípios e dos métodos. O ritmo, por exemplo: é intenso? É moderado? É paciente? Existe alternância de ritmo (a equipe sai de uma circulação horizontal e busca passes verticais a partir de um determinado “gatilho)? Quais os propósitos que se podem diagnosticar para o uso de cada ritmo, ou para a eventual alternância – ou seja, o que se pode deduzir do modelo de jogo a partir da análise do ritmo, combinada com o sistema, a estratégia, os princípios, os métodos e com a contextualização de todas estas informações?

Pode-se verificar também se há setores mais fortes, e consequentemente mais utilizados – seja na construção, seja na criação, seja na finalização. Ou então se há um (ou mais) jogador-chave em qualquer das fases. E o tipo de passes (curtos, médios, longos, alternados), assim como as zonas preponderantes para as quais se direcionam. É empregada alguma jogada com maior frequência (cruzamentos, finalizações de média distância, liberdade para dribles)? São muitas questões relevantes a prender a nossa atenção e a exigir uma análise criteriosa.

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