9.Bola Parada

2018-12-10T10:57:28+00:00 25 fevereiro, 2018|1 Comment

Considerada há algum tempo o 5º momento do jogo sob a perspectiva tática, a bola parada ainda é uma das searas menos exploradas da teoria do futebol. De fato, boa parte dos autores aplica a ela os mesmos conceitos das fases ofensivas e defensivas, adaptando-os aos lances de bola parada em função de suas peculiaridades.

Mais recentemente, além dos usuais escanteio, falta lateral, falta direta e pênalti, os arremessos laterais também são utilizados como ferramentas ofensivas na bola parada, exigindo que se elaborem planos defensivos para conter eventuais adversários que se utilizem destas ações de arremesso manual diretamente para a área, quase reproduzindo situações de escanteio.

Mas neste capítulo os escanteios serão abordados com maior profundidade – e quase com exclusividade – por serem as ações de bola parada que, principalmente na fase defensiva, mostram-se mais elaboradas e diversificadas nas escolhas dos treinadores.

Os estudos nesta área crescem não apenas pelo potencial (aumento de demanda versus bibliografia escassa) mas pela constatação de sua influência cada vez maior no resultado das partidas.

Segundo o professor Jorge Castelo, entre 25 e 50% das situações de finalização e de criação das situações de finalização são originadas a partir de soluções táticas de bola parada. Para ele, confrontos entre equipes semelhantes são cada vez mais decididos por gols derivados de escanteios, faltas laterais, faltas diretas, pênaltis ou arremessos laterais.

Os professores Mário Bonfanti e Angelo Pereni, autores do livro Fútbol a Balón Parado, também levantaram um número próximo a 50% dos gols marcados no futebol moderno originados em lances de bola parada, ou em consequência destes lances. Outros estudos chegaram a marcas semelhantes, apontando em 47% o número de gols resultantes de bola parada. Segundo Bonfanti e Pereni, nas situações ofensivas de bola parada deve-se:

– realçar a organização da jogada;

– elaborar a surpresa e a oportunidade de variar as jogadas;

– explorar as habilidades de um jogador do seu time e as debilidades de um adversário;

– ter atenção a lapsos de concentração e à confiança.

O britânico Charles Hughes, diretor de treinadores da Football Association (FA) que gere o futebol inglês e autor, entre outras obras, do Manual de futebol para o curso de treinadores da instituição, enumerou cinco vantagens dos lances de bola parada:

– a bola parada elimina automaticamente a necessidade de controle da bola;

– os adversários precisam se colocar a uma distância mínima do cobrador, o que elimina a pressão sobre a bola;

– um grande número de atacantes e/ou de jogadores com potencial de jogo aéreo deslocam-se para área ofensivas de perigo;

– os jogadores se posicionam em zonas pré-planejadas, por vezes atendendo ao estudo de deficiências na marcação adversária;

– o treinamento sistemático destes lances produz níveis de sincronização dos movimentos.

Mais especificamente no que diz respeito aos escanteios ofensivos, Hughes caracteriza três tipos de cobrança: longa (direta para a área); média (segundo jogador acionado em aproximação ao batedor, para cruzamento após o primeiro toque); e curta (segundo jogador próximo ao cobrador, recebe o passe curto para o cruzamento ou a combinação).

Jorge Castelo vai além e expande essa divisão com mais dois pormenores, ligados à cobrança longa (direta): efeito para dentro (pé fechado) ou para fora (pé aberto), o que influencia diretamente no posicionamento tanto da defesa quanto dos atacantes. Estudos recentes apontam que mais de 85% dos escanteios são cobrados diretamente para a área, restando apenas 15% de cobranças em dois tempos (curtas ou médias).

Diversos autores ressaltam ainda, nos lances ofensivos de bola parada, a importância das movimentações sincronizadas entre os atacantes, combinando este aspecto ao estudo da marcação adversária. Ou seja, aplicar os movimentos pré-treinados às carências identificadas nos comportamentos defensivos do rival, explorando espaços ou jogadores que possam comprometer a eficácia da marcação, potencializando a oportunidade de gol.

Estes movimentos sincronizados podem incluir “bloqueios”, uma adaptação ao futebol de movimento muito empregado no basquete e no futebol americano. Um jogador (ou mais, conforme a estratégia) bloqueia fisicamente o marcador de um companheiro – o alvo da batida – permitindo que este se desmarque e busque a finalização. Algo que, associado a uma cobrança precisa, pode ser muito eficiente. Em geral, as arbitragens não marcam falta em bloqueios ofensivos de bola parada – ou então não os percebem.

Em geral, pela observação de jogos das competições mais recentes de todas as principais ligas mundiais, o padrão quase absoluto das equipes em escanteio ofensivo é ingressar na área com 5 jogadores à espera do cruzamento, variando numericamente apenas no número de jogadores no rebote (1, 2 ou até mesmo 3) e na possibilidade de haver aproximação para cobrança curta. Abaixo podemos observar diversos estilos de escanteios ofensivos, com 9 imagens:

Vale o mesmo dos escanteios para as faltas laterais – combinar estudo do adversário e sincronia de movimentos. Neste tipo de bola parada, Hughes indica ainda que o posicionamento de dois batedores – um destro e um canhoto – dificulta a decisão da defesa na hora de posicionar a linha, e abre a possibilidade de uma cobrança combinada.

Já nos lances de bola parada defensiva, o professor José Maria Yagüe Cabezón define o processo da seguinte forma: “Consiste nas soluções tático-técnicas individuais e coletivas da equipe, com a finalidade de neutralizar e anular as ações de bola parada ofensivas do adversário”. Cabezón enumerou ainda três princípios básicos dos lances de bola parada defensiva:
– manter elevada a concentração durante o lance;
– dispor de uma organização defensiva bem estruturada, tanto a nível
individual como coletivo;
– possuir estratégias definidas para a transição ofensiva.

Jorge Castelo divide os tipos de marcação em três: por zona, individual ou mista. Neste aspecto, existe muita discussão sobre a eficácia de cada modelo, por vezes até com defesas exasperadas de pontos de vista entre defensores da zona e da individual nas bolas paradas defensivas.

– Individual: cada elemento da equipe que defende tem responsabilidade por um adversário em particular, nunca se afastando dele; é próxima, rígida e agressiva, aumentando de intensidade à medida que se aproxima do gol;
– Zona: cada jogador é responsável por uma zona do terreno, intervindo ativamente a partir do momento em que a bola ou o adversário com a bola entrem em seu raio de ação; visa a fechar os espaços mais perigosos e a condicionar o comportamento do adversário;
– Mista: combina elementos das duas anteriores, com alguns jogadores respeitando a referência por zona, e outros as referências individualizadas, na mesma ação.

Alguns estudos têm sido publicados, principalmente nas escolas portuguesas, sobre a utilização dos três modelos, e os consequentes percentuais de eficácia. Um sobre a Eurocopa de 2004 aponta que 79,5% dos escanteios tiveram defesa mista, 17% individual e apenas 3,5% por zona; a Liga Portuguesa de 2004 apontou 84% mista, 14% zona e 2% individual; e um levantamento sobre a Eurocopa de 2008 encontrou 49,6% mista, 27% zona e 23,4% individual.

Variam muito os números, mas em geral a marcação mista é a mais utilizada. Sobre ela, Manuel Casanova – autor de um excelente estudo sobre a eficácia dos diversos modelos de bola parada pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto – faz uma importante subdivisão:

Este método pode ter uma variedade muito grande: por um lado, pode ser composta na sua maioria por jogadores a defender à zona e desse modo assemelhar-se mais ao método defensivo zonal; por outro lado, pode ter mais jogadores a realizar defesa individual e desse modo assemelhar-se mais com o método de defesa individual.

Tem sido este, ao menos no futebol brasileiro, o principal ponto de observação nas bolas paradas defensivas: o crescimento da utilização da marcação mista com supremacia da zona. Na prática, muitos jogadores marcando por setor, e poucos individualmente, como veremos nas imagens a seguir.

É difícil de se encontrar uma equipe que marque exclusivamente por zona as bolas paradas, assim como é muito raro uma exclusivamente individual – se levarmos em consideração que os jogadores posicionados nos postes estão marcando “setores”, por exemplo. Isso faz com que a quase totalidade das defesas de bola parada sejam mistas, variando na predominância do número de jogadores – uns com mais homens por setor, outros com mais individuais.

Na predominância de zona, por exemplo, utilizam-se de um a três jogadores (em média) para “bloquear” individualmente os melhores cabeceadores adversários, ou qualquer alvo que se projete detrás; já na predominância individual, cada um pega o seu alvo (em geral 5 contra 5) e definem-se jogadores setorizados para a 1ª e, por vezes, até a 2ª trave.

Há variação também no número de jogadores no rebote, assim como no comportamento frente à ameaça de cobrança curta, e também na soma de todos os envolvidos na ação – podem voltar os dez jogadores de linha, ou deixar jogador (es) à frente como referência de contra-ataque. Outro aspecto interessante de se observar é o posicionamento do goleiro, por vezes mais para fora da pequena área, por vezes mais próximo à linha.

Abaixo temos uma sequência de 9 imagens com diversos modelos de marcação em escanteios na temporada 2017/18:

Outra parte importante do plano defensivo nas bolas paradas é o contra-ataque. Segundo o professor Júlio Garganta, as transições ofensivas em bolas paradas precisam levar em consideração os seguintes aspectos:

– Aproveitar a desorganização adversária, em uma ação na qual os zagueiros e demais defensores altos costumam ir ao ataque;
– É aconselhável trocas poucos passes – entre quatro e cinco, no máximo;
– Estes passes devem ser longos e para a frente;
– Toda a ação precisa levar entre 5 e 10 segundos, no máximo 12 segundos;
– Até 4 jogadores devem se envolver no contra-ataque;
– Deve-se buscar a superioridade numérica sobre a defesa na zona de finalização.

Um comentário

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