4.Momentos do Jogo e Mudança de Comportamento

2018-12-10T11:03:43+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

São diversos os treinadores, pesquisadores e professores portugueses responsáveis pela elaboração de conteúdo teórico sobre o futebol. E tornou-se um consenso nesta escola de produção de conhecimento sobre o jogo e sobre a análise do jogo a divisão em quatro momentos, sempre em função da bola e, principalmente, de quem está com ela no confronto entre duas equipes.

Nas primeiras observações, apenas dois eram reconhecidos: o momento ofensivo (equipe sob enfoque com a bola) e o momento defensivo (equipe sob enfoque sem a bola). Mas concluiu-se que haveria um terceiro – as transições, os momentos de troca de posse, subdivididos em transição ofensiva (momento de recuperação da bola) e transição defensiva (momento de perda da bola).

Segundo o professor José Guilherme Oliveira, “os quatro momentos devem permitir, em todas as circunstâncias, através da sua inter-relação, a identificação da singularidade do todo, podendo assumir várias escalas, nomeadamente a escala coletiva (equipe), setorial (grupo de jogadores), intersetorial (interligação entre jogadores) e individual (jogador)”.

Ele deixa claro, com isso, que a observação de cada momento separadamente possibilita a identificação tanto de comportamentos individuais, como de pequenos grupos, de setores e do todo, do coletivo. O treinador Jorge Castelo também abordou o tema:

No jogo de futebol identificam-se dois processos antagônicos perfeitamente distintos (ofensivo e defensivo), contudo complementares entre si. Estes dois processos refletem, fundamentalmente, conceitos, objetivos e comportamentos tático-técnicos diferentes, sendo determinados pela condição de posse, ou não, da bola”.

Na análise de desempenho, é preciso identificar os princípios que atendem ao modelo de jogo do time analisado em todos estes momentos, para identificar os comportamentos que se evidenciam de forma organizada. Inicialmente, algumas obviedades precisam ser ditas, para depois se avançar na busca por estes padrões.

Uma equipe está em Organização Ofensiva quando tem a bola. E o que se pretende neste momento de posse? Construir, preparar e criar situações para finalizar a gol, afinal, é a alteração do placar a favor que garante na prática a vitória. Além, é claro, de trabalhar para impedir que o adversário recupere a bola.

Dentro do modelo de jogo, o técnico aprimora os princípios e subprincípios com os quais deseja estruturar as ações ofensivas da equipe – as regras que os jogadores devem seguir para evitar que o adversário retome a bola, e para chegar à marcação de gols.

Reitera-se que estes princípios referentes às ideias de futebol contidas no modelo de jogo diferem de time para time. Existem treinadores que procuram organização ofensiva com posse, circulação de bola com passes curtos, formação de triângulos e aproximações, estimulando a mobilidade e a agilidade, enquanto outros preferem saídas longas em ataques diretos, com menos trocas de passes e mais objetividade.

Do contrário, na Organização Defensiva a equipe trabalha simultaneamente para evitar que o adversário finalize a gol, e para recuperar a posse de bola. Não há fórmulas definitivas, e de novo cada treinador precisa estabelecer as regras que vão estruturar o comportamento dos jogadores neste momento de proteção do gol e tentativa de recuperação da posse.

As referências estabelecidas podem ser de marcação por zona (defesa de espaço), ou por encaixes individuais…o time pode se posicionar em bloco mais adiantado ou mais recuado…pode haver maior ou menor pressão sobre o portador da bola…as linhas e diagonais de cobertura também diferem conforme as convicções do treinador…são muitas as possibilidades.

Nota-se, entretanto, que estes dois momentos estão em constante interação, não apenas pela sobreposição de estratégias das equipes em confronto pela posse da bola e pela progressão no campo adversário, como também porque os jogadores que defendem precisam estar preparados para atacar, e vice-versa.

Esta Mudança de Comportamento é característica fundamental entre jogadores à frente dos demais na inteligência de jogo. Na prática, é a capacidade que o atleta tem de identificar rapidamente que houve alteração na organização da equipe, o que lhe exige modificação de comportamento tático para cumprir novas atribuições. Algo que se torna muito mais nítido nas transições, nos momentos de troca de posse.

Segundo o professor Júlio Garganta, “as transições são momentos em que se procura a alteração rápida e eficaz de comportamentos e atitudes com o intuito de surpreender o adversário, aproveitando a sua desorganização ou retardando ao máximo a sua organização. Surgem no momento em que se conquista a posse de bola (defesa-ataque) e no momento em que se perde a posse de bola (ataque-defesa), em que é necessário mudar o sentido do fluxo de jogo tão depressa quanto possível”.

José Mourinho, consagrado treinador português, costuma elaborar complexos relatórios nos quais descreve o modelo de jogo que pretende implementar na sua equipe, antes de iniciar a temporada. Quando ele comandava o Porto, definiu desta forma a prerrogativa inicial para as transições:

Transição Ofensiva“O objetivo mais importante é aproveitar o adversário ainda desorganizado posicionalmente, para criar o mais rápido possível as possibilidades de marcar o gol”.

Isso também pode ser planejado de diversas formas, elaborando saídas em velocidade com troca de corredor, identificando pontos vulneráveis do adversário, ou proporcionando a chegada em apoio com bom número de jogadores.

Transição Defensiva“O objetivo mais importante é organizar-se o mais rápido possível para evitar que o adversário possa criar possibilidades de marcar gol”.

O que pode se conquistar com pressão imediata no momento da perda, ou então a sincronia entre um pequeno grupo atrasando a jogada enquanto os demais se reorganizam.

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