7.Transição Ofensiva

2018-12-10T11:01:40+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

De início a análise mais elaborada do futebol empenhava-se em identificar os padrões com bola e sem bola. Mas, a partir do desenvolvimento desta área de atuação, principalmente na escola portuguesa com a alta produção de conteúdo teórico/acadêmico sobre os Jogos Desportivos Coletivos, passou-se a considerar sub-divisões voltadas à análise dos momentos de mudança de posse: as transições.

Dizer que as transições referem-se aos momentos de mudança de posse é bastante claro. Ou seja, a transição ofensiva se dá quando uma equipe recupera a bola, assim como a transição defensiva acontece quando a equipe sob análise perde a bola.

Disse o treinador brasileiro Leandro Calixto Zago, no artigo “Princípios operacionais de transição”:

No momento da perda da posse de bola, a equipe já deve apresentar respostas individuais e coletivas que estejam conjecturadas com seu modelo de jogo independentemente do que este propõe. Os jogadores devem ter claro quais são as ações que eles deverão tomar no instante imediato após a recuperação da bola ou de sua perda. Antes de se organizar defensivamente, uma equipe deve apresentar características de sua organização ‘ataque-defesa’ para potencializar os efeitos da sua parte defensiva”.

José Manuel Fernandes de Oliveira também estudou as transições, destacando a importância de se aproveitar os momentos de desorganização do adversário durante a recuperação da bola:

O momento de transição ataque-defesa caracteriza-se pelos comportamentos que devem ser assumidos durante os segundos após se perder a posse de bola. Estes segundos são particularmente importantes tendo em conta que as equipes se encontram momentaneamente desorganizadas para as novas funções que têm de assumir, pelo que ambas tentam aproveitar as desorganizações adversárias. Por sua vez, o momento de transição defesa/ataque é caracterizado pelos comportamentos que se devem manifestar durante os segundos imediatos ao ganhar-se a posse da bola. Estes segundos são importantes porque, tal como na transição defesa/ataque, as equipes encontram-se desorganizadas para as novas funções e o objetivo é aproveitar as desorganizações adversárias para proveito próprio”.

Ou seja, se o adversário tem a bola, obviamente ele assume riscos projetando seus jogadores e criando movimentos que visam à criação de espaços, tirando-os de seus setores originais. A partir do momento em que a equipe consegue roubar a bola deste adversário, vai encontrá-lo em breve desorganização, situação para a qual é preciso haver um plano que possibilite aproveitar os espaços descobertos de forma ágil e objetiva.

O professor Jorge Castelo avança nestes conceitos, especificando um traço importante da transição ofensiva: o tempo de execução. Segundo ele, o momento deve durar no máximo 12 segundos. A partir daí, se não houve progressão com finalização, as duas equipes mudam novamente de fase – quem roubou a bola e não finalizou entra em organização ofensiva, assim como quem está sem a bola já teve tempo de se reorganizar e entrar em organização defensiva. Castelo enumerou passos para a execução da transição ofensiva:

  1. a conquista da bola é realizada no meio campo defensivo, apresentando-se a equipe adversária avançada no terreno de jogo e desequilibrada defensivamente;
  2. a rápida transição das atitudes e comportamentos tático-técnicos individuais e coletivos da fase defensiva para a fase ofensiva do jogo, logo após a recuperação da posse da bola;
  3. a utilização, sobretudo, de passes longos e para a frente, realizando-se a circulação da bola mais em profundidade do que em largura, com desmarcações de ruptura;
  4. o número reduzido de passes (igual ou inferior a cinco);
  5. a elevada velocidade de transição da zona do campo onde se efetuou a recuperação da posse da bola, às zonas predominantes de finalização, diminuindo, assim, o tempo da fase de construção do processo ofensivo (inferior a 12 segundos);
  6. o ritmo de jogo elevado (elevada velocidade de circulação da bola e dos jogadores).

Nota-se que Castelo destacou outro aspecto fundamental: a mudança de comportamento. A partir da roubada de bola, os jogadores que estavam na fase defensiva precisam “despertar” para o novo momento e prontamente seguir o plano direcionado à transição ofensiva, projetando-se nos espaços vulneráveis.

Neste capítulo é preciso recorrer novamente aos textos do brasileiro Rodrigo Aparecido Azevedo Leitão que, identificando a carência de fundamentos teóricos sobre o tema, descreveu os princípios operacionais e estruturais do momento do jogo que é popularmente conhecido por “contra-ataque”.

Acredito que os princípios estruturais têm maior valor como curiosidade, até pela falta de outras referências teóricas deste porte, mas se mostram muito abrangentes e amplos, entrando de certa forma nos conceitos dos demais momentos do jogo. São três, segundo Leitão, os princípios estruturais da transição ofensiva:

– Densidade ofensiva: é a relação entre o número de jogadores que participam da fase de ataque de uma equipe com o número de jogadores que participam da defesa do adversário;

– Balanço ofensivo: é o número e a forma de disposição dos jogadores ofensivos enquanto sua equipe sofre um ataque;

– Proporção de ataque
: é a relação entre o número de jogadores que participam efetivamente da fase de ataque da equipe com o número de jogadores que se preocupam predominantemente com a defesa durante a fase ofensiva – conceito que será levado em consideração também na transição defensiva, no sentido inverso.

Já os princípios operacionais são mais interessantes e de fácil visualização. Segundo Leitão, também são três:

– Tirar a bola da zona de pressão: é um conceito bastante trabalhado nas transições ofensivas. Se o adversário, no momento da perda, tenta a rápida recuperação – o que pode ser facilmente observado nas equipes treinadas por Guardiola – acionando os jogadores próximos em direção ao portador da bola, é sinal que espaços no lado oposto vão se abrir.

Esta saída de pressão pode se dar de forma apoiada, com trocas de passes curtos e ágeis (a imagem seguinte apresenta um exemplo deste método, com o Manchester City “rodando” a bola do lado onde houve a recuperação até o lado oposto), com o uso de um pivô ou com um lançamento longo.

– Progredir com a bola em direção ao gol: em geral com o portador da bola utilizando o princípio de penetração – ou seja, conduzindo em velocidade na direção do gol, como podemos ver em mais um exemplo do City na imagem abaixo – mas também pode se dar com o passe vertical para um jogador que progride sem a bola, para receber à frente:

– Manter a bola na zona de pressão: este princípio organizacional da transição ofensiva é menos utilizado pela óbvia dificuldade de êxito. Ainda assim algumas equipes podem eventualmente recorrer a ele, em especial de acordo com o contexto da jogada, dependendo da leitura do jogador com a bola – na fração de segundos que lhe cabe avaliar as opções, ele conclui que a melhor opção está na região do campo povoada pelos adversários, e não no lado oposto.

O próprio City também apresenta exemplos deste princípio da transição ofensiva, mantendo-se na pressão em inferioridade numérica:

Leandro Zago, no já citado artigo sobre transições, subdivide o contra-ataque em dois momentos, avançando na análise de Rodrigo Leitão. Segundo ele, no 1º momento a equipe opta entre sair da pressão ou progredir; caso tenha escolhido sair da pressão, no 2º momento ela pode manter a posse (entra em organização ofensiva) ou progredir em apoio (oferta de linhas de passe em projeção); caso opte pela progressão imediata, no 3º momento pode definir-se entre o ataque rápido (definir objetivamente o lance, mesmo que em jogada individual/condução) ou combinado, tendo para isso que contar com a aproximação de pelo menos um jogador ao portador da bola.

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