Análise: pressão alta e agressividade no 4-3-1-2

2018-12-10T10:25:19+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

Em 2016, buscando alternativas táticas ao 4-2-3-1 usual, o então técnico do Grêmio – Roger Machado – encomendou ao setor de análise de desempenho um estudo sobre o 4-3-1-2 (também conhecido por 4-4-2 losango). A ideia era produzir análises em vídeo dos comportamentos ofensivos e defensivos de diversas equipes, prospectando ideias que pudessem inspirar a construção de um novo modelo de jogo.

Produzimos análises do Chelsea de Mourinho, do Liverpool de Brendan Rodgers, do Hoffenheim de Markus Gisdol…entre outros. Mas o modelo que mais chamou a atenção já era conhecido, e muito: o do Rosario Central, que poucos meses antes havia eliminado o Grêmio da Libertadores.

Ressalto, antes de tudo, que não há conflito em compartilhar com os amigos tais informações pois não são sigilosas ou confidenciais, servindo apenas como objeto de estudo para aqueles que frequentam o blog ou minhas redes sociais em busca de subsídios para a evolução no entendimento de conceitos da teoria tática. Além disso, esta alternativa não durou mais que dois ou três jogos, depois dos quais Roger reconstituiu o 4-2-3-1 habitual.

Estrutura versátil
Este Rosario Central de Eduardo Coudet poderia ser descrito de várias formas em seu posicionamento inicial. Mantinham-se a linha defensiva e o tripé central formado por um primeiro volante e por dois carrilleros natos (podemos chamá-los, em português, de médio-apoiadores).

Mas o trio ofensivo assumia mais de uma cara: podia ser um 4-3-1-2, com enganche e dois atacantes; 4-3-2-1, a Árvore de Natal de Carlo Ancelotti, com dois meias-atacantes atrás do centroavante; ou até mesmo 4-3-3. Tudo isso dentro do mesmo jogo, com os mesmos jogadores, em função de circunstâncias da partida. Convencionamos chamar de 4-3-1-2 por considerarmos ser este o ponto de partida mais frequente para os movimentos do trio ofensivo.

Torre de marcação
Percebeu-se que o 4-3-1-2 e suas consequentes variações já citadas é um sistema propício para a criação de uma torre de marcação, concentrando seis jogadores escalonados em pelo menos quatro linhas – o que facilita movimentos de subida de pressão. Ao contrário de sistemas com extremos ou pontas, a concentração de seis jogadores sucedendo-se em linhas que poderiam ser desdobradas em 1-2-1-2 leva naturalmente a equipe a um ponto mais alto do campo adversário.

torre

Pressão sobre a bola e agressividade
Além da questão tática-estrutural, também devemos levar em consideração elementos comportamentais – jogadores agressivos, intensos e dinâmicos, ideais para a afirmação de comportamentos defensivos deste porte. O que fica evidente não apenas na análise das imagens, mas também dos números:

Em dois indicadores de performance monitorados por nós durante a Libertadores 2016, descritivos de agressividade na marcação, o Rosario Central estava em 2º lugar entre as aproximadamente 40 equipes (somando a fase prévia), ficando em ambos atrás apenas da Universidad de Chile – ainda com resquícios do modelo de jogo implementado por Jorge Sampaoli e preservado por seus sucessores/seguidores:

  • Na REC 5 (recuperação de bola em até 5 segundos após a perda, independentemente do local do campo) o indicador do Rosario Central era de 13,55%, perdendo apenas para os 16,08% da U de Chile;
  • Na PRE (quantidade de passes permitidos ao adversário na saída de bola) o indicador do Rosario Central era de 5,56 passes, atrás apenas dos 4.54 passes permitidos pela U de Chile até a realização de alguma intervenção;

Eram indicadores resultantes desta combinação de estrutura defensiva em torre alta e de comportamento agressivo dos jogadores – entre eles os apoiadores Aguirre, Montoya e Colmán, e os atacantes Cervi, Marco Rúben e Herrera.

Todos muito agressivos nas abordagens ao portador da bola e no fechamento às linhas de passe próximas. Além das facilidades proporcionadas pelo escalonamento das linhas de marcação a partir do 4-3-1-2, os jogadores acompanhavam a trajetória da bola em alta velocidade e abordavam os adversários buscando roubar a bola, e não apenas encurtando espaços com os pés cravados no chão. Para eles não bastava aproximar-se e parar, mas sim atacar o adversário na intenção de roubar/induzir ao erro/matar a jogada, com alta contundência:

pressao

agressividade

Em geral estes movimentos coordenados de subida de pressão com alta agressividade nas abordagens e no encurtamento das linhas de passe partiam de duas possibilidades: qualquer recuo de bola pelo adversário (jogadores acompanham a trajetória da bola) ou o simples comando do primeiro volante Musto, que a tudo orquestrava como um homem da sobra pela frente da linha defensiva. Nota-se na imagem abaixo o volante Musto com o braço estendido, ordenando a subida de seus companheiros, que prontamente atendem a um dos gatilhos da subida de pressão:

comando

Encaixes
Estas subidas de pressão não tinham preocupação com eventuais distanciamentos entre o bloco ofensivo e o bloco defensivo, ambos formados por 5 jogadores cada; os médio apoiadores, meias e atacantes poderiam atacar a saída adversária enquanto o primeiro volante e os defensores ficavam mais recuados.

O que os tranquilizava eram os encaixes muito próximos, buscando o total fechamento das linhas de passe. Ao mesmo tempo o portador da bola estava sob forte pressão de um ou até dois jogadores, induzido a acelerar a tomada de decisão e a diminuir o percentual de acerto técnico no gesto/execução da ideia elaborada às pressas, e ainda por cima sem linhas de passe abertas – tanto no centro de jogo como em profundidade:

encaixes

encaixes_dois

Princípios defensivos
Pode-se pensar que os encaixes e eventuais distanciamentos entre dois blocos resultavam em desorganização ou em falta de princípios, mas era o contrário. Podem conferir no capítulo Organização Defensiva aqui do blog o respeito a muitos dos princípios elencados pelo professor Rodrigo Leitão, entre eles flutuação, direcionamento, bloco, compactação e recuperação.

A rápida mudança de comportamento com abordagens em alta velocidade por uma torre de cinco jogadores muito próximos uns dos outros proporcionava muitos momentos de superioridade numérica do Rosario Central no centro de jogo mesmo que dentro do campo adversário. Portador pressionado por um ou dois jogadores, linhas de passe próximas fechadas, coberturas próximas e linhas de passe em profundidade também fechadas.

superioridade

Acima, vemos 5 jogadores fechando-se sobre 4 adversários, uma linha de passe próxima fechada, duas linhas de passe em profundidade fechadas, e o primeiro volante fazendo a cobertura – sobrando pela frente. Praticamente o mesmo acontece abaixo, após um movimento muito frequente do bloco ofensivo: caso o adversário conseguisse ultrapassar a pressão com um passe para a frente, todos estes jogadores recuavam e seguiam a trajetória da bola, “estrangulando” quem a recebia:

superioridade_dois

estrangulamento

Zona de pressão
A dupla de atacantes, propícia para este modelo de jogo, auxiliava na manutenção da bola na zona de pressão. Em geral eles fechavam as linhas de passe de retorno, e acabavam se dirigindo cada vez mais ao centro de jogo (o raio de ação mais próximo do portador), impedindo que a bola pudesse sair dali e devolvendo-a para a zona de pressão:

zona_pressao

Transição agressiva
Além disso, em momentos de perda da bola os jogadores que estavam atrás da linha do portador em geral corriam para a frente, e não para trás. A regra não era recompor as linhas e temporizar, mas sim manter o centro de jogo congestionado e impedir a progressão adversária imediatamente. Na imagem abaixo os três jogadores sinalizados iniciam movimentos para a frente a partir da perda da posse, recuperando-a rapidamente ainda na intermediária de ataque.

zona_pressao_dois

Tudo isso para descrever comportamentos possíveis a partir da estrutura 4-3-1-2 e suas consequentes variações, sem juízo de valor. Poderia ser qualquer outra equipe utilizada como exemplo, portanto, o que vale é a análise dos comportamentos, e não do caso específico. Abaixo está o vídeo que serviu de base para os frames que ilustram o post:

Pressão alta e intensidade no 4-3-1-2 from Eduardo Cecconi on Vimeo.

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