3.Conceitos Básicos

2018-12-10T11:04:19+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

Está claro que o futebol, apesar de ser um sistema caótico de constante oposição (com o adversário) e cooperação (com os companheiros), produz através de posicionamentos e movimentos treinados padrões de comportamento identificáveis. Percebê-los, entretanto, não prescinde de treinamento amparado em critérios.

Segundo o filósofo, pedagogo e escritor espanhol José Antônio Marina, “os critérios funcionam como padrões que nos permitem identificar, selecionar e avaliar as coisas”.

Não basta apenas gostar de futebol para conhecê-lo. É preciso buscar referências teóricas, criando um repertório de conceitos necessários à observação criteriosa das partidas, conquistando assim recursos para a identificação dos tais padrões de comportamento e a interpretação do modelo de jogo em questão.

Convencionei chamar Tríade Primária a diferenciação entre os conceitos mais básicos, e que tanta confusão provocam entre observadores iniciantes – ou, principalmente, entre as pessoas resistentes à análise tática especializada: posicionamento inicial, posição e função.

Posicionamento Inicial é a região da qual o jogador parte, e para onde ele invariavelmente retorna durante a partida. Não se ignora que futebol é um jogo de constante movimento, mas os jogadores são orientados a ocupar determinados setores do campo, sendo estas regiões suas referências – principalmente quando o time está sem a bola.

Já a Posição do jogador tem mais a ver com suas características. É a resposta que ele preencheria na hipotética questão “profissão” caso fosse entrevistado por recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diz respeito a suas virtudes, e como ele as utiliza em campo.

E a Função é o conjunto de atribuições que o jogador cumpre na partida.

Eventuais problemas surgem com a sobreposição dos conceitos de posição e função, principalmente. É quando o analista confunde a característica do jogador com a função desempenhada por ele em campo.

Podemos nos utilizar de um exemplo próximo e recente: Robinho é atacante de origem (posição), ou seja, tem característica de jogador de frente; mas, na Seleção Brasileira de 2010, com o técnico Dunga, cumpria em jogo a função de meia-extremo, atuando aberto pelo lado esquerdo em um sistema tático que partia inicialmente do 4-2-3-1. tendo Kaká na meia-central, Elano na extrema direita, e Luís Fabiano como centroavante.

Se um eventual observador atento apenas às características dos jogadores, ignorando os movimentos realizados na partida, assistisse ao Brasil de Dunga, diria que o sistema tático era o 4-4-2 – porque Robinho e Luís Fabiano são atacantes de origem. Estaria definindo as posições dos jogadores como critérios únicos. Mas, observando-se os posicionamentos iniciais e as funções cumpridas por ambos era um 4-2-3-1, com Robinho – apesar de originalmente atacante por ofício – cumprindo a tática individual de extremo aberto pelo lado esquerdo na segunda linha de meio-campo.

Existem outras dezenas de casos, e o 4-2-3-1 é pródigo em análises equivocadas quando se utilizam atacantes de origem (posição) abertos pelos lados na segunda linha de meio-campo (função no jogo), com os observadores tomando a posição pela função.

Somando-se os posicionamentos iniciais de cada jogador, ou seja, observando-se o desenho que o time forma quando todos retornam a seus setores originais, é possível definir o Sistema Tático – o planejamento responsável por ordenar a distribuição dos jogadores em campo, coordenando todas as partes entre si.

Embora seja um termo popularizado no meio do futebol, muitos acadêmicos que estudam o esporte – no Brasil a principal referência é o professor-doutor Israel Teoldo, na Universidade Federal de Viçosa – denominam Esquema Tático e são contrários ao uso da palavra sistema neste contexto.

Estes sistemas/esquemas são descritos por números, há alguns anos desdobrados em três blocos (defesa, meio-campo e ataque) – consagrando o 4-3-3, o 4-4-2, o 3-5-2 – recentemente transformados em sequências de quatro números (ou às vezes mais) para dividir o meio-campo em bloco defensivo e bloco ofensivo, trazendo as descrições de sistemas como o 4-2-3-1, o 3-4-1-2, o 4-3-1-2, e por aí vai. Vale destacar que em Portugal o goleiro não é ignorado na descrição, sendo bastante comum encontrar na bibliografia especializada e na imprensa deste país referências ao 1-4-2-3-1, 1-4-3-3, e assim por diante.

Existem muitos críticos – principalmente entre jornalistas esportivos brasileiros – à análise tática, com especial resistência às descrições numéricas dos sistemas táticos. Utilizam-se de ironias para depreciar observadores e análises. Considero um desperdício debater sobre um comportamento tão anacrônico, mas ainda assim é preciso reforçar uma ideia óbvia e translúcida para qualquer analista: futebol é movimento, não é estático, portanto os posicionamentos iniciais servem como referência de ocupação espacial sem interferir na análise de todos os movimentos coordenados e sincronizados que os jogadores realizam.

Porém, se um objeto movimenta-se do ponto A para o ponto B, é sinal de que há um ponto de partida e um ponto de chegada, ligados pela trajetória daquele que se movimentou. Enxergar apenas um dos pontos é equivocar-se. Assim como a análise não termina na identificação dos “pontos de partida” dos jogadores, e do consequente sistema tático inicial da equipe, ela também não se resume a ver apenas onde eles chegam após os deslocamentos.

É preciso observar todo o conjunto de movimentos e posicionamentos para identificar os padrões de comportamento e interpretar o modelo de jogo. Portanto, não cabe em uma análise tática minimamente responsável e criteriosa ignorar-se o “ponto A”. Saber ver os posicionamentos iniciais e o sistema tático das equipes é a fagulha que inicia a combustão da análise. Sem ela, todo o restante prescindirá de valor e critério, aumentando a margem de erro.

Ao Sistema Tático, em cada partida, aplica-se a Estratégia o conjunto de movimentos atribuídos a cada jogador, e daí em diante a cada pequeno grupo, e também a cada setor naquele jogo. É o plano para se chegar a um fim.

A estratégia reúne elementos diversos, desde a característica dos jogadores escolhidos, passando pelo sistema de marcação, pela intensidade dos movimentos, pelas funções, pelas sincronias em pequenos grupos, pela ordenação dos setores, pela análise dos comportamentos do adversário. Assim como os jogadores podem, individualmente, estabelecer estratégias subjetivas de enfrentamento em uma determinada ação.

Confrontando-se estes dois conceitos, percebe-se que duas equipes com sistemas táticos semelhantes podem apresentar em um confronto estratégias absolutamente diferentes. E uma mesma equipe pode, sem alterar o sistema tático inicial – a estrutura que interliga os posicionamentos dos seus jogadores – estabelecer diferentes estratégias conforme o adversário, de jogo para jogo, ou até mesmo modificar a estratégia durante o andamento da partida.

Dentro da estratégia aplicada ao sistema, ambas correspondendo a um modelo de jogo que abriga todos os princípios treinados, há diferentes abordagens para a palavra “tática”. Existe a Tática Individual, um sinônimo para a Função. Tática Individual é, portanto, o conjunto de atribuições que o jogador cumpre na partida em questão – suas tarefas com bola e sem bola, a região do campo que ocupa, a maneira como interage com os companheiros e como confronta os oponentes.

Existe também a Tática de Grupo, um conjunto de funções sincronizadas entre jogadores próximos. Estes pequenos grupos podem interligar jogadores de diferentes setores – em um 4-2-3-1, por exemplo, o lateral, o volante e o meia-extremo do mesmo lado formam um triângulo em constante interação. Cabe a eles desempenhar tarefas que repercutem um no outro, ou seja, levando eles a cumprir uma tática dirigida a este pequeno grupo.

A tática de grupo pode ainda se referir a um setor – os quatro jogadores da linha defensiva, por exemplo – estabelecendo movimentos coordenados entre eles. Como no balanço defensivo em direção ao lado atacado, quando estes quatro jogadores precisam se movimentar em total sincronia. Conclui-se, com estes dois exemplos, que cada jogador envolve-se em diversas táticas de grupo.

E a Tática Coletiva é o próprio sistema tático, a descrição numérica que identifica os posicionamentos iniciais de cada jogador, ampliando a visão para estruturá-los em um desenho único. Em geral, procura-se identificar linhas que liguem uns aos outros, por isso há tantas analogias com a geometria (linha, quadrado, losango, triângulo).

No entanto, embora esta premissa aplique-se à quase totalidade das equipes, nem sempre a simples observação dos posicionamentos iniciais – as regiões do campo para onde os jogadores retornam quando a equipe está sem a bola – é garantia de acerto na identificação da estrutura, do sistema tático. É preciso confrontar estas informações com o comportamento dos jogadores, seus movimentos e suas interações com os companheiros, principalmente quando há dúvida.

Um caso emblemático, e cada vez mais comum, está nas equipes que se utilizam do sistema 4-2-3-1, mas aplicando a ele uma estratégia de marcação em duas linhas de quatro. Se a identificação dos posicionamentos iniciais fosse determinante para a definição do sistema observado, ele seria chamado de 4-4-2.

Nota-se, entretanto – ao se analisar o comportamento defensivo do meia-central – que sem a bola ele se alinha ao centroavante para pressionar a saída dos zagueiros. Ou seja, ele parte de um ponto A mais recuado para um ponto B mais adiantado. Embora sem a bola a equipe organize-se em duas linhas de quatro, o sistema inicial é o 4-2-3-1, conclusão originada pelo cruzamento destas informações e principalmente pela identificação deste movimento específico de marcação do meia-central. Este jogador não está partindo daquela região adiantada, mas sim chegando até ela vindo de um setor recuado.

Acredito que esta simbiose entre 4-2-3-1 e marcação em duas linhas tenha se popularizado para amenizar um problema defensivo provocado pela distância entre os meias-extremos e os laterais, uma espécie de “ponto cego” de marcação do 4-2-3-1. Isso porque, simultaneamente à subida de pressão do meia-central, os extremos descem para a linha dos volantes, aproximando-se dos laterais e tornando os setores mais compactos.

Além disso, como a maioria das equipes atua com linha defensiva de quatro jogadores, a subida de pressão do meia-central coloca dois jogadores para marcar os dois zagueiros adversários, dificultando a saída de bola. Caso a marcação se desse em 4-2-3-1, além do maior espaço entre laterais e extremos haveria ainda liberdade para um dos zagueiros oponente fazer a saída.

Este movimento sincronizado foi bastante observado no Chelsea do técnico José Mourinho campeão da Premier League na temporada 2014/15 – sistema tático 4-2-3-1, mas com organização defensiva em duas linhas de quatro, graças à simultânea subida de pressão do meia-central com a descida dos extremos à faixa dos volantes. E desde então disseminou-se em todos os países, incluindo o Brasil, proporcionando muitos exemplos de 4-2-3-1 com marcação em duas linhas de quatro.

Deixe um comentário