1.Campo de Batalha (Introdução)

2018-12-10T11:05:35+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

Vem da literatura bélica a popularização da palavra tática, e consequentemente de seu conceito. Debruçados sobre mapas que descreviam a topografia das regiões em conflito, militares das mais altas patentes destacaram-se pelas vitórias amparadas em planejamento – quem ataca, de que forma e quando; quem defende, o que defende e como.

Da teoria à prática, distribuíam nos campos de batalha seus combatentes e apetrechos letais conforme uma lógica, levando em consideração o maior número possível de fatores integrados ao contexto – características do terreno e do tempo, virtudes e defeitos próprios e do adversário. Seguiam, para a tomada de decisões, preceitos encontrados em livros e no próprio aprendizado com a experiência.

Nos filmes e nos seriados sobre o tema, os militares encenados criam armadilhas, encurralam oponentes, induzem os inimigos a fugir na direção de emboscadas minuciosamente arquitetadas, simulam a queda iminente para abrir a guarda rival. Cada soldado sabe exatamente qual tarefa a cumprir, de forma sincronizada com os demais companheiros de bandeira.

Alguns comandantes desenham mapas com gravetos no chão arenoso e empilham pedras simulando habitações. Localizam geograficamente cada combatente, apontando onde ele deve estar, o que deve fazer e qual o momento exato para desencadear a ação. Ministram verdadeiras palestras. Para recordar, ou para (re) ver, pode-se mencionar em especial os filmes O PatriotaGladiadorO Último Samurai300Robin Hood…entre muitos outros. Constam nestes filmes legítimas preleções dos comandantes (ou seriam treinadores?) a seus soldados (ou seriam jogadores?). Sempre há referências táticas em qualquer filme ou seriado de guerra.

Tática é, enfim, a arte de manobrar tropas, de distribuí-las na zona de conflito. Imprescindível, portanto, à organização das equipes de futebol inseridas no campo de batalha delimitado por linhas brancas, bandeiras e traves. A organização no futebol apropriou-se do planejamento bélico pela evidente analogia: há duas tropas formadas por onze guerreiros distribuídos de forma inteligente e com atribuições definidas para sobrepujar o oponente.

Assim como tais generais assimilavam conteúdo ao mesmo tempo da teoria e da prática, no futebol o conhecimento pode vir da academia ou da observação ou das duas situações ao mesmo tempo. Existe, inclusive, um método para se “aprender vendo” – como esclarece a pesquisadora Lynda Baker, em trecho do livro “Observation: a complex method”:

A observação sistemática é um método de indagação complexo porque requer que o observador desempenhe um conjunto de funções e recorra a diferentes meios, incluindo os cinco sentidos. Por isso, a pesquisa observacional caracteriza-se por requerer um treino especializado dos observadores, no que respeita a o quê, como e quando observar”.

O que há de mais importante nesta citação? Configurar o observador especializado como alguém capaz de saber o quê, como e quando observar, um conceito que se aplica sobremaneira ao analista tático, analista de desempenho ou analista de performance, seja qual for a nomenclatura. Existem conceitos, fundamentos e princípios que tornam o futebol um esporte altamente elaborado. E isso exige, consequentemente, que o observador ou analista aprofunde o conhecimento com estudo e experiência prática para atender a estas prerrogativas.

No mesmo livro, Lynda Baker destaca a importância do embasamento teórico para o sucesso da metodologia observacional:

É o saber ver que suscita um problema profundo, porque não só qualquer teoria depende de uma observação, mas também porque qualquer observação depende de uma teoria. Deste modo, a mera observação, sem uma teoria, não tem validade científica”.

O processo é o mesmo da construção de textos jornalísticos, nos quais o primeiro parágrafo exige de imediato a resposta às perguntas o que, quem, onde, quando, como e por que, formando no conjunto de respostas para algo que jargão jornalístico é conhecido como lide. Ao se observar uma partida de futebol com enfoque na análise tática, a cada movimento, a cada lance, é preciso perguntar-se tudo isso, buscando as respostas no seu repertório de conhecimento e no contexto do jogo.

Este é o problema da análise de futebol no Brasil, entre os jornalistas em geral e entre boa parte dos torcedores: praticamente não há oferta de conhecimento disseminada. Só aprofunda a análise quem toma a iniciativa de procurar em outras fontes. Do contrário, o vulgo popular é estimulado a desdenhar desta possibilidade, tornando o debate superficial, subjetivo e opinativo, com pouco ou quase nenhum embasamento.

Em uma de suas melhores crônicas, Exagero, Luís Fernando Veríssimo fala sobre os avanços tecnológicos e a consequente adaptação humana aos novos confortos. Ele recorda, por exemplo, que há algumas décadas não existiam rádios portáteis. Era impossível ouvir uma transmissão esportiva e assistir ao jogo no estádio simultaneamente. E então Veríssimo ironiza:

Como as pessoas sabiam se estavam gostando ou não do jogo sem ouvir os comentaristas?

A sentença é verdadeira e aplica-se ao passado ilustrado pelo autor. Antes da internet e da tevê a cabo, o conhecimento público sobre futebol estava restrito às opiniões dos comentaristas, geralmente repórteres de campo com muitos anos de trabalho que, pelo desgaste da idade, subiam às cabines. São reprodutores de uma subjetividade vazia, transmitindo à grande massa opiniões sem critério e fomentando um debate pobre, visceral e agressivo. Afinal, a interatividade das novas mídias é reflexo do conteúdo ofertado: jornalismo pobre, interatividade pobre. É um ciclo difícil de ser interrompido sem que o jornalismo avance para abordagens mais elaboradas, profundas e contextualizadas.

O objetivo desta compilação de capítulos reescritos de um superficial e-book lançado há alguns anos – com mais de 18 mil downloads gratuitos – e também publicados via blog, é exatamente prover argumentos àqueles que pretendem debater o futebol com mais recursos. O conhecimento aqui compartilhado não vem exclusivamente da academia, mas sim das leituras que fiz e das experiências que tive em quase uma década dedicada à análise tática – primeiro no jornalismo esportivo, depois como analista de desempenho.

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