12.Inverting the Pyramid

2018-12-10T10:55:32+00:00 25 fevereiro, 2018|0 Comments

Em 2008 o jornalista e pesquisador inglês Jonathan Wilson publicou a primeira edição do hoje consagrado livro “Inverting the Pyramid“. Como bem diz o subtítulo na capa, a obra teve como objetivo apresentar a história da evolução tática no futebol. Desde o primeiro sistema reconhecido até as tendências atuais e perspectivas para o futuro recente. Uma obra-prima, de leitura obrigatória para quem pretende entender o jogo, fruto de exaustiva pesquisa do autor (que viajava aos países dos times e seleções retratados para entrevistar fontes e chafurdar em arquivos de bibliotecas e jornais locais). A obra foi traduzida para o português pelo não-menos brilhante jornalista André Kfouri, e publicado pela editora Grande Área.

No ano seguinte, publiquei no desativado blog Preleção uma série de posts com a resenha do livro, enfatizando esta linha do tempo tática. Sem subdividir o livro em capítulos, mas sim em cada novo sistema identificado.

Resgatei os textos e imagens originais e condenso todo o material que publiquei nesta resenha do “Inverting the Pyramid” – tornando o post bastante extenso – logo abaixo. Encontrei 16 postagens resenhando o livro, e pela memória acredito que tenha faltado uma, sobre o surgimento do 4-2-3-1 e as tendências a partir dele, mas no arquivo do blog desativado não consegui localizá-la.

1. Primeira tática do futebol se inspirou no rugby

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A primeira curiosidade na linha do tempo dos sistemas táticos é a influência do rugby na organização das equipes. Influência esta proporcionada pelo compartilhamento entre ambos os esportes da regra do impedimento, quando houve a divisão entre eles.

O futebol é mais antigo. No século XVIII, chegou a ser banido em algumas regiões britânicas pela violência demasiada. Mas no início do séculoi XIX, ele foi utilizado como ferramenta política de fortalecimento do Império entre os jovens – principalmente por ser um esporte coletivo. Sendo disseminado nas escolas britânicas como atividade física.

Mas cada escola criou regras próprias. Não havia padrão. Em algumas se utilizava o pé, em outras a mão, e em outras ambos. Variava-se ainda o número de jogadores. Diferenças que inviabilizavam os confrontos entre escolas. Houve reuniões entre as instituições de ensino, que por maioria restringiram o toque com as mãos, o que desgostou o pessoal da Rugby School – originando o surgimento do rugby na dissidência.

Em 1848 estas escolas lançaram o primeiro compêndio de regras unificadas do futebol. Com uma ainda bastante ligada ao rugby, como destaca Jonathan Wilson no Inverting the Pyramid. A “Lei 6” determinava que todos os jogadores à frente da linha da bola estariam impedidos de tocá-la. O rugby até hoje é assim.

Como resultado, as primeiras ações técnicas e táticas do futebol foram idênticas às do rugby, trocando apenas as mãos pelos pés. As equipes se organizavam em uma espécie de 1-2-7, com a linha de sete atacantes agrupando-se como os paredões uniformes vistos nos campos de rugby.

Sem poder acionar companheiros à frente da linha da bola, o futebol se tornou um esporte coletivo na teoria, mas quase individual na prática. A “Lei 6” forçava os jogadores a buscar a decisão pessoal, sem trocar passes. Quem recuperasse a bola, partia com ela dominada em velocidade até perdê-la, ou concluir a gol. Terminada a jogada, a outra equipe fazia o mesmo: um jogador pegava a bola e partia correndo, com um enxame de seus colegas vindo atrás. Só condução, sem passes. Chamado por Jonathan Wilson de “kick and run” (chute e corra).

Isso contribuiu para a demora na constatação de que o futebol é um esporte eminentemente tático, e coletivo. Inpirados no rugby, os jogadores queriam decidir sozinhos em grandes arrancadas. Essa noção individualista era tão evidente que os “chefes das turmas” nas escolas formavam a linha de sete atacantes, deixando o trabalho sujo de desarme aos calouros. Foi preciso alterar a regra do impedimento para que o futebol se tornasse um esporte coletivo, com trocas de passes e valorização da organização tática.

2. Novo impedimento provoca 1ª variação tática

dois

Dezoito anos depois de sua criação, a lei de impedimento do futebol abandonou a inspiração no rugby. Os jogos estavam monótonos, tediosos, com sucessões de “kick and run`s” de lado a outro – chutões e correria em jogadas individuais. Quem ultrapassasse a linha da bola estaria impedido, portanto, quem recuperava a bola saía correndo sem passar para ninguém.

Em 1866, foi decidido que bastaria ter pela frente três adversários (o goleiro e mais dois, por exemplo) para legalizar a posição de um jogador. O objetivo era claro: estimular as combinações de jogada. Se antes os atletas partiam correndo para não voltar o jogo (só podiam passar para quem estivesse atrás da linha da bola) agora os companheiros tinham liberdade para se deslocar e criar alternativas mais adiantadas.

À esta época, adotavam-se dois sistemas táticos: o 1-2-7 e o 2-2-6 – que fazia muito sucesso com o escocês Queens Park. Eles atuavam com dois zagueiros, dois meio-campistas e seis atacantes, sendo: dois pontas, dois atacantes internos, e dois centroavantes. Os ingleses ainda usavam o sistema com três centroavantes, somando sete jogadores ofensivos, e apenas um zagueiro.

Ambos os sistemas, entretanto, não ajudavam as equipes a modificar a estratégia. Ainda se jogava no kick and run mesmo com a alteração na lei do impedimento. Era quase um instinto de “fazer rugby com os pés”. Cenário que começou a mudar na década de 70 do século XIX.

Foi quando aconteceu a primeira variação tática que se tem registro no futebol. A Inglaterra abdicou dos dois centroavantes e da linha de sete na frente. Com base no 2-2-6 dos escoceses, os ingleses recuaram o centroavante para a linha de meio-campo, criando o centre-half (centromédio).

Jonathan Wilson chama este novo sistema de “pirâmide”: dois zagueiros, três meio-campistas, e cinco atacantes. O 2-3-5. Ainda vocacionado ao desequilíbrio entre defesa e ataque, ainda com o vício do kick and run, mas com um claro propósito – criar opções para linhas de passe.

Com o centromédio, inaugurou-se também a figura do organizador. Centralizado, ele não era apenas um combatente, mas o jogador que começava ainda que de forma primitiva a articular a saída de jogo, a fazer a distribuição dos passes, a arriscar lançamentos longos. Futebol como esporte coletivo, eminentemente tático, com variações no posicionamento dos jogadores e na estratégia. Tudo isso a partir da percepção de que não bastava correr sozinho com a bola.

3. As primeiras escolas clássicas de futebol

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No início do século XX, apesar da situação quase amadora do futebol, já se difundiam conceitos que caracterizavam escolas de futebol em formação. Mesmo com bases táticas semelhantes – ou o 2-2-6, ou o 2-3-5 – utilizadas como default`s, países influentes transmitiam também filosofias. Estratégias. Estilos de jogo. No Inverting the Pyramid, é possível identificar pelo menos três estilos de jogo completamente diferentes que se desenvolveram na transição entre os séculos XIX e XX.

A Escola Inglesa baseava-se no kick and run. Força, mas acima de tudo velocidade. Apesar da mudança na lei do impedimento, que passou a permitir passes à frente da linha da bola, os clubes e a seleção da Inglaterra não abandonaram a estratégia de condução em disparada. Principalmente pelos lados. Alguns ainda no embrionário 1-2-7, outros já no 2-3-5, mas todos investindo demais nas jogadas laterais, com os wingers – jogadores que começavam a se destacar com duas prerrogativas fundamentais: alta velocidade e individualismo para decidir sozinho.

Mas, apesar de ter criado o futebol moderno, não foi a Inglaterra quem exerceu influência teórica sobre países da Europa, principalmente na região central do continente. Foi a Escócia, com o 2-2-6 do Queens Park, e um estilo descrito por Jonathan Wilson como o close/quickly-passing (algo como “passes rápidos e curtos”). Uma estratégia de jogo absolutamente diversa da inglesa. Para os escoceses, a nova lei do impedimento surtiu o efeito ambicionado pelos seus idealizadores: incentivar as linhas de passe. Vale ressaltar que esse Queens Park não é o QP Rangers. É só Queens Park, conhecido como “The Spiders”, clube que não deu sequência a seu sucesso. É o mais antigo da Escócia, mas milita nas divisões inferiores agora.

O estilo escocês foi importado por Áustria e Hungria, formando a Danubian School, a partir de uma excursão de clubes escoceses na região. Austríacos e húngaros perceberam que era mais inteligente aproximar seus jogadores, trocar passes curtos e dessa forma abrir espaços, ao invés de fazer ligação direta para os wingers dispararem, como praticavam os ingleses. As duas seleções – Áustria e Hungria – assumiram até certo protagonismo nas primeiras competições e amistosos internacionais pela Europa, mas depois declinaram.

Outra escola clássica da “idade Antiga do futebol” nasceu no Uruguai, com repercussão semelhante na Argentina. Desde cedo resistentes à influência externa, os argentinos e uruguaios de descendência latina não gostavam do futebol de velocidade e força praticado por ingleses na disseminação do futebol pela região do Rio da Prata.

E começaram a improvisar, brincar com a bola, ludibriar adversários. Driblar. Conforme conceitua Jonathan Wilson, nascia o estilo home-grown (em português, algo como “feito em casa”). O futebol de improviso, mantendo a posse de bola em curto espaço. Foi dessa forma que o Uruguai conquistou duas Olimpíadas (24 e 28), dois Mundiais (30 e 50) e seis Copas Américas em curto espaço de tempo (16, 17, 20, 23, 24 e 26).

Ingleses no chutar e correr; escoceses, austríacos e húngaros no passe rápido e curto; uruguaios e argentinos no drible e no improviso em pequenos espaços. Foram estas, segundo o Inverting the Pyramid, as principais escolas de futebol do início do século XX, que influenciaram tantos outros países a adotar estes mesmos estilos de jogo, mesmo que a base tática (o 2-3-5) fosse corriqueira. Muito cedo o futebol já fortalecia o óbvio: sistema tático é uma coisa, estratégia é outra coisa, e apesar da qualidade técnica dos jogadores ser muito importante, o principal é a organização da equipe em um esporte coletivo.

4. O revolucionário W.M de Herbert Chapman

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A organização das equipes, com todos os conceitos norteadores para sistemas e estratégias, tornou-se prerrogativa fundamental a partir da criação do W.M. O pai dessa revolução tática é o técnico Herbert Chapman, que levou o Arsenal a protagonizar a maior inovação tática da história – se levarmos em consideração todos os efeitos consecutivos ao seu surgimento.

Assim como acontecera no final do século XIX, foi uma nova alteração na regra do impedimento que motivou o desenvolvimento desta nova organização. Em 1925, os dirigentes da FA constataram que o Campeonato Inglês estava chato. Marcava-se poucos gols, mesmo com cinco atacantes dispostos no “default” 2-3-5. A solução encontrada foi reduzir para dois, e não mais três, o número de adversários necessários para legalizar a condição de qualquer jogador. Na prática, um goleiro e um zagueiro à frente eram suficientes – regra que perdurou até a criação da “mesma linha”.

Chapman, que desde 1925 treinava o Arsenal no corriqueiro 2-3-5, em 1930 experimentou três alterações de posicionamento: recuou o centromédio, colocando-o entre os dois zagueiros (criando a figura do “zagueiro central”, conhecida até hoje); e criou uma segunda linha de meio-campo, a partir do recuo dos dois atacantes-internos. *A leitura deste diagrama, um 3-4-3 (ou 3-2-2-3, como queiram) formava no campo duas letras – W no ataque, M na defesa. Nascia o W.M.

A estratégia, entretanto, contrariava o objetivo da FA na mudança da lei de impedimento. O W.M do Arsenal primava pelo contra-ataque. Chapman abdicava da figura do organizador – o centromédio, recuado para a zaga. Na frente, abria seus wingers. Sem a bola, o Arsenal recuava, compactando-se com três zagueiros e “dois volantes”; recuperada a posse, a equipe recorria à ligação direta, em lançamentos longos na direção dos wingers.

Ter o recuo estratégio e o contra-ataque veloz pelos lados como estratégias fizeram o W.M consolidar no futebol inglês um estilo conceituado por Jonathan Wilson como o “wing-play” (algo como “jogo para os wingers”). Os wingers, espécie de pontas velocistas e individualistas, ganharam grande destaque. A Inglaterra formou uma verdadeira geração de craques para a função, notabilizando-se Stanley Mathews como seu principal protagonista – um jogador que criava e finalizava as próprias jogadas. Na prática, o wing-play fez o futebol inglês permanecer individualista, contrariando as filosofias coletivas do passe-curto adotadas na maioria dos países.

Aos poucos, os resultados do Arsenal ampararam a disseminação do W.M como novo sistema tático default na Europa. Equipes que mantinham o 2-3-5 assumiam o risco do “atraso”. Mas Chapman teve de lidar também com uma saraivada de críticas. Afinal, sua interpretação tática da nova lei de impedimento surtiu efeito contrário ao desejado pela FA. Ele foi acusado de tornar o futebol “ainda mais feio”, mais defensivo.

Ele também foi responsabilizado pela estagnação do futebol inglês. Os resultados obtidos pelo W.M foram tão significativos que sua influência enrijeceu os demais treinadores locais. A partir do sistema de Chapman, técnicos de outros países desenvolveram variações, novas interpretações, modificações de acordo com as características de seus jogadores, e conforme a cultura tática que os norteava. Enquanto isso, a Inglaterra blindou-se às inovações. A culpa, obviamente, não era de Chapman.

Na verdade, Chapman foi o precursor de uma filosofia de trabalho hoje impossível de se alijar do futebol: a do verdadeiro técnico, um profissional estudioso e dedicado. O comandante do Arsenal, pai do W.M, é tido por Jonathan Wilson como o introdutor do estudo tático. Chapman fazia preleções, com quadro-negro aos jogadores; analisava os adversários, combatendo suas virtudes e explorando suas deficiências; ministrava palestras táticas, debatia com seus atletas posicionamento. Via no futebol a necessidade de organização coletiva. A imprescindibilidade, aliás, desta organização.

5. Itália reúne dois sistemas e cria o W.W

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Na Itália a revolução chegou e foi adaptada às características do futebol local, interpretação que originou um novo sistema. Conforme Wilson lembra em criteriosa apuração histórica, o regime fascista viu no futebol um importante instrumento de propaganda política. Seria necessário criar, principalmente na seleção nacional, uma identidade. O povo precisaria reconhecer na seleção características também atribuídas ao fascismo, e pelos bons resultados vindouros concluir que tudo ia bem no país.

Com o técnico Pozzo no comando, um nacionalista simpático a esta filosofia, a Itália se decidiu pelo futebol-força. Os jogadores teriam de ser atletas, combinando vigor físico e velocidade. Massa muscular e explosão. E, nas atitudades, serem combativos, determinados e dedicados à causa. “Vencer a qualquer custo” era o lema da Azzurra – lema este que levou a Itália a praticar até mesmo certa violência, com intimidação física em campo, como relata Wilson em diveros jogos importantes. Mas, além do comportamento exigido, a Itália também apresentou nesta época uma bela inovação tática.

Pozzo não confiava no 2-3-5, ainda utilizado como padrão na Europa. E também se mostrava resistente ao recém-surgido W.M. A solução foi reunir ambos. De maneira até certo ponto simplista, é possível dizer que o técnico da seleção italiana montou um planejamento com o sistema defensivo do 2-3-5, e o sistema ofensivo do W.M. Nascia o W.W, que pode ser desdobrado em 2-5-3 (ou em 2-3-2-3, como queiram) – reitero, como já avisara ontem, que a tradução do sistema em letras se dá pela leitura do diagrama tático do ataque para a defesa, padronizando a maneira como Jonathan Wilson faz no Inverting the Pyramid.

A Itália passou a jogar com dois zagueiros, protegidos por um centromédio e dois meias lateralizados, tal qual se usava no 2-3-5. Mas acrescentou uma segunda linha no meio-campo, à exemplo do W.M, recuando os atacantes internos para a intermediária. Na frente, permaneceram o centroavante e dois ponteiros abertos pelos lados. Pozzo também foi um dos pioneiros da marcação individual, que adotava sempre para anular o cérebro da equipe adversária – geralmente o centromédio no 2-3-5, ou o centroavante no W.M.

Foi com o W.W que a Itália conquistou duas Copas do Mundo consecutivas, em 1934 e 1938. A inovação tática e a estratégia de futebol-força a ela aplicada deram grande resultado. Subitamente, a Itália tomava da “Danubian School” – Áustria e Hungria – o protagonismo do futebol europeu, desbancando ainda os pragmáticos ingleses e a escola Sul-Americana representada pelo talento individual dos uruguaios e argentinos.

6. Russos inauguram as trocas de posições

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A Rússia demorou a ingressar no cenário do futebol europeu pelo isolamento geográfico, que os impedia de enfrentar adversários estrangeiros, vivendo durante muito tempo de forma praticamente amadora. A situação se alterou a partir de 1937, quando uma equipe do País Basco excursionou pela Rússia vencendo com facilidade as equipes locais. Enquanto os bascos atuavam no W.M de Herbert Chapman, os russos ainda estagnavam-se no 2-3-5 dos primórdios.

E, assim como nos planos de recuperação da imagem do império na Inglaterra, ou na tentativa de fortalecer uma identidade nacional na Itália fascista, a política interferiu no futebol. Os comunistas não gostaram do massacre basco, e exigiram mudanças.

Pressionados, os técnicos russos debruçaram-se sobre as incipientes pranchetas táticas para estudar maneiras de evoluir. O primeiro passo, lógico, foi a disseminação quase imediata do então desconhecido W.M entre as equipes. E, a partir dele, adotaram a mesma política italiana incrementando a tendência tática com características locais. Também se buscou a profissionalização do campeonato nacional e a abertura para excursões, tanto dos russos para fora, como também a recepção aos estrangeiros no país.

Jonathan Wilson descreve o novo estilo russo implementado na década de 40 como a “desordem organizada”. Tendo o Dinamo Moscow como protagonista, o futebol da Rússia apresentou ao futebol uma estratégia pioneira: as trocas de posições. Desde o início, apesar de todo o crescimento do planejamento tático, e da evolução dos sistemas, os jogadores cumpriam funções e assumiam posicionamentos rígidos.

Tanto os meias-atacantes como também os pontas e o centroavante do Dinamo propunham um verdadeiro carrossel de inversões. O centroavante recuava para o meio, um dos pontas ingressava na área, os meias avançavam pelos lados. Mantendo sempre o desenho do “W” na frente, mas alternando os jogadores que ocupavam cada uma das posições. O que desestruturava a marcação adversária.

No W.M, a marcação era idêntica ao do 3-5-2 brasileiro: individual por função. E agravada pela referência numérica: em 1939, a FA inglesa determinou a adoção fixa dos números de 1 a 11, na ordem crescente por posição, tendo o 2-3-5 como default. Medida que impôs ao centroavante jogar com a 9, aos pontas atuar com 7 e 11, e aos meias vestir a 8 e a 10. Os marcadores tomavam os números como referência. No W.M, por exemplo, o zagueiro central “marcava o 9″, seus companheiros pegavam o 7 e o 11, e os meio-campistas centrais perseguiam o 8 e o 10. Encaixe espelhado perfeito. O famoso “cada um pega o seu”.

A movimentação dos russos destruía este paradigma numérico. O zagueiro central se via obrigado a seguir o camisa 9 aonde ele fosse, abrindo espaço para diagonais dos pontas, ou infiltração dos meias. E todos eles circulando, trocando de posições, arrastavam consequentemente seus marcadores como reféns de um recurso tático ainda não utilizado e, portanto, sem um antídoto.

Eles resgataram ainda o estilo escocês, e também da Danubian School, de passes curtos e valorização da posse de bola pelo chão, sem ligação direta ou correria dos wingers, como se fazia na Inglaterra. O capítulo no qual Jonathan Wilson trata da inovação russa é curto, mas revela a importância desta interpretação do Dinamo Moscow ao W.M, e também como a estratégia aplicada a um determinado sistema tático muda completamente seu funcionamento.

7. A interpretação dos húngaros para o W.M

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Se os russos acrescentaram ao W.M de Herbert Chapman a movimentação dos homens de frente, e os italianos sem o recuo do centromédio montaram o W.W, o futebol da Hungria também contribuiu para o desenvolvimento do sistema. Na Hungria, o W.M virou M.M – lembro que a leitura das letras no diagrama tático, para padronizar, é feita do campo ofensivo para o defensivo. A base desta variação tática é o recuo do centrovante para a segunda linha de meio-campo. Evolução tática, como sempre, amparada em uma peculiaridade local. Estratégia conforme as características do futebol húngaro aplicada à base do W.M britânico.

Ao contrário dos ingleses e seus centroavantões de referência que aparavam na área os cruzamentos dos wingers, os húngaros não gostavam do trombador. Preferiam, desde a introdução do estilo passe-curto escocês na região, um centroavante de mobilidade e velocidade. Um jogador que também participasse da criação das jogadas, ao invés de um “poste” finalizador.

Foi o técnico Gusztav Sebes quem implementou o recuo do centroavante Hidegkuti à zona de armação. A Hungria não jogava mais com dois articuladores, mas sim com três. Beneficiando-se da mesma premissa dos russos nas inversões de posição: com a marcação individual por função do W.M, Hidegkuti arrastava consigo o zagueiro central, abrindo espaços para as infiltrações dos pontas e dos meias. Ou, se o zagueiro não o perseguisse, dominava livre de marcação, para organizar com calma a jogada de ataque.

Com o M.M a Hungria conquistou as Olimpíadas de 1949, e poderia ter sido campeã mundial em 1954, não fosse o contra-veneno da Alemanha Ocidental na decisão. Conforme Jonathan Wilson resgata, a Alemanha intensificou a marcação individual sobre Hidegkuti. Homem-a-homem. Matou a fonte de criatividade húngara, e virou uma partida de 2 a 0 para 3 a 2, talvez contando com certa soberba dos húngaros, que estavam há 36 jogos invictos, com grandes atuações.

Esta Hungria de Sebes foi o embrião também do 4-2-4 imortalizado pelo Brasil em 1958. Reparem no diagrama tático que ilustra o post: além do recuo do centroavante para a armação, a Hungria permitia que seus meias-ofensivos alinhassem com os pontas, formando uma linha de quatro na frente. De início, era só um movimento de ida-e-volta, mas depois se consolidou como posição inicial. O segundo passo, que aconteceu mais adiante, foi o recuo de um meia-defensivo para a linha de defesa (figura que se tornaria, no Brasil, o “quarto-zagueiro”).

8. O 4-2-4 do Brasil bicampeão Mundial

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Vários treinadores reivindicaram a paternidade do 4-2-4, ou então tiveram esta paternidade atribuída por alguém. Certo é que Vicente Feola chegou à Copa de 1958 com um forte legado de boas referências para a consolidação de um sistema que foi se desenhando em diversas partes, em equipes treinadas por nomes como Zezé Moreira, Fleitas Solich, Bélla Guttman e Flávio Costa – técnico do Brasil nas copas de 50 e 54.

O principal elemento catalizador da transição, no Brasil, do W.M para o 4-2-4 foi a indisciplina tática dos jogadores brasileiros. Com a imigração de técnicos húngaros, fugindo da Segunda Grande Guerra, o nosso futebol recebeu grande contribuição na evolução tática. Mas todos esbarraram na inviabilidade de aliar qualidade técnica e comprometimento coletivo. Os jogadores brasileiros não queriam obedecer o rígido posicionamento, nem executar a marcação individual por função do W.M.

Flávio Costa fez grande sucesso no início da Copa de 50 aplicando na Seleção Brasileira um desenho tático que Jonathan Wilson chama de “diagonais”. É uma variação do W.M, com meio-campo formando um paralelograma. O problema foi ter retornado ao W.M tradicional na decisão com o Uruguai, em um imperdoável impulso defensivista. Notem, no diagrama tático abaixo, como funcionava. Na prática, ele desfez o quadrado de meio-campo do W.M (um 3-4-3), aproximando um volante da linha defensiva, e um meia-ofensivo dos três atacantes – tornando-o um ponta-de-lança:

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Este desenho estava próximo de um 4-2-4. De mesma forma, quando os húngaros fizeram seu M.M, o recuo do centroavante para a ponta-de-lança e o avanço dos meias ofensivos também configuravam um embrião do eterno sistema brasileiro. Como sempre, a nova tendência viria da inteligência de treinadores que souberam adaptar um padrão tático às características culturais do futebol local.

Feola se beneficiou destas variações húngaras e brasileiras. Zezé Moreira percebeu que os jogadores do Fluminense não conseguiam se adaptar à marcação individual por função e criou a marcação por zona no W.M. Costa lançou as diagonais. Martim Francisco, no Vila Nova-MG, recuou ainda mais o volante, e avançou ainda mais o ponta-de-lança, em movimento que Jonathan Wilson considera o primeiro 4-2-4 identificável, em 1951. Fleitas Solich fez o mesmo no Flamengo de 53, e Bélla Guttman no São Paulo de 56.

Para a Seleção Brasileira de 1958, o 4-2-4 encaixou perfeitamente à característica do elenco. Pelé, na ponta-de-lança, reunia os elementos requeridos pela função de assessorar o centroavante, criando e concluindo. Garrincha, declaradamente indiscplinado taticamente, abriu pela direita e teve liberdade para brincar. A compensação vinha na esquerda, com o estratégico recuo por dentro de Zagallo. Zito e Didi marcavam e faziam a qualificada saída de jogo. E Bellini, recuado para ser o “quarto zagueiro” – função que até hoje recebe este nome por aqui, recebia autorização para ganhar o meio-campo.

Notem que o avanço eventual de Bellini, e o recuo sincronizado de Zagallo, davam ao Brasil vez que outra a cara do 3-4-3 – o W.M. Com a diferença da variação inovadora da linha de quatro na frente, e principalmente a marcação por zona na linha defensiva – que ganhava laterais, o que evitava as perseguições encaixadas do sistema anterior, responsáveis pelos buracos na área. Um sistema novo que, aliado à qualidade técnica e ao improviso incomparável de Pelé, Garrincha, Didi, Zito…, fez o Brasil vencer com sobras as copas de 58 e 62.

9. Zagallo disseminou as variações táticas

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O 4-2-4 nasceu no Brasil e ganhou destaque com o título de 1958, mas desde seus primeiros dias na Seleção já pendia ao 4-3-3. Graças ao movimento de vai-volta do então ponta-esquerda Zagallo, que pela intensidade com que retornava para auxiliar na marcação, acabava se tornando uma espécie de terceiro homem do meio-campo.

Em 1962 o recuo de Zagallo ficou tão configurado que não se via mais uma variação do 4-2-4 para o 4-3-3, e sim o inverso: o posicionamento inicial do “Formiguinha” – assim chamado pelo desvelo na aplicação tática – partia do meio-campo. O Brasil já atuava com três atacantes, e Zagallo era o pioneiro – ou então, o primeiro a ganhar fama neste sentido – da polivalência. Um jogador capaz de desempenhar mais de uma tática individual (função), permitindo à equipe variar dentro da mesma partida seu sistema tático.

O exemplo de Zagallo disseminou pelo futebol mundial diversas variações táticas. Se até a Copa de 1958 sempre havia uma tendência predominante, que influenciava os demais (primeiro o 2-3-5, depois o W.M, depois o 4-2-4), a partir de Zagallo cada treinador passou a estudar como conciliar as características de seus jogadores a um sistema de jogo que pudesse explorar essas virtudes da melhor maneira.

Em 1966, a Inglaterra conquistou sua primeira – e única – Copa do Mundo amparada em duas variações táticas. Alf Ramsey, técnico dos ingleses, convocou jogadores polivalentes, com a clara intenção de consolidar mais de um sistema tático, mais de uma estratégia, mais de um padrão de jogo. Ele percebeu que, a despeito da técnica individual, da importância do jogador, a organização coletiva está acima do brilho singular que antes predominava no kick and rush, embrião do wing play inglês, que por muitos anos fez o país acreditar que o futebol se decidia pelos pés de um velocista habilidoso “resolvendo sozinho”.

Ramsey começou no 4-2-4 sua jornada, mas rapidamente escolheu “um Zagallo” para variar ao 4-3-3. Segundo Jonathan Wilson resgata no livro Inverting the Pyramid, o winger direito Paine reproduzia no English Team o movimento de vai-vem lateralizado do Formiguinha brasileiro. Com grande sucesso nos amistosos prévios da Copa. Desempenho satisfatório que levou Ramsey a esconder o jogo dos adversários – ele atuava no 4-2-4, mas treinava no 4-3-3, com a intenção de lançar uma falsa percepção do estilo inglês para os concorrentes.

As mudanças não pararam. Tanto que o segundo jogador a recuar, de maneira definitiva, foi o centroavante Bobby Charlton. Ele deixou de ser um segundo jogador de área, para atuar centralizado na segunda linha de meio-campo, como organizador. Na frente, dois homens. Um 4-4-2 bem caracterizado. Paine saiu, mas Ramsey fixou Peters e Ball – dois formiguinhas – pelos lados, completando com Bobby Charlton o setor.

Jonathan Wilson reproduz uma excelente definição de Ramsey, justificando sua escolha à época: “ter dois wingers abertos pelos lados é deixar sua equipe com apenas nove jogadores quando está sem a bola”. Foi para ocupar melhor os espaços no meio-campo que o treinador da Inglaterra optou pelo fim do wing play, pelo fim dos pontas, e pelo fim do 4-2-4. Um centroavante recuou, um winger tornou-se meio-campista, e os atacantes alinharam-se para formar uma dupla de área. Na final, este 4-4-2 venceu a Alemanha Ocidental, que se utilizava do “default” do 4-2-4 brasileiro.

O desenho, entretanto, ainda não era o das famosas “duas linhas de quatro”. Havia um volante central à frente do quarteto defensivo, guarnecendo um trio de articuladores que contava com um organizador, e dois apoiadores que faziam o vai-vem pelos lados do campo. Na prática, um ponta-de-lança e dois Zagallos. O sistema tático deu certo – e escondê-lo nos amistosos lançou surpresa sobre o que os ingleses apresentavam na Copa, sem que os adversários tivessem um antídoto.

10. Catenaccio: pai da retranca e do contra-ataque

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Jonathan Wilson debatia com frequência no blog The Question do site The Guardian sobre a influência do 4-4-2 em duas linhas, que ele considera nociva na Inglaterra. E na leitura do livro “Elementi di Tattica Calcistica – Volume 1″, escrito por Franco Ferrari, encontrei o gancho para falar também da cultura tática italiana.

Quando se diz que na Itália se pratica um futebol dos mais defensivistas, a origem está no Catenaccio. O Catenaccio não é bem um sistema tático, mas sim uma estratégia de jogo. E esta estratégia volta-se a duas prerrogativas fundamentais: solidez defensiva e velocidade no contra-ataque.

O surgimento do Catenaccio se deu no início da década de 30. A criação é atribuída a Karl Rappan, técnico do Grasshopers e depois da seleção da Suíça. Mas foi na Itália que esta estratégia se disseminou, tendo a Inter de Milão bicampeã europeia como seu principal propagandista.

Na descrição tática, o Catenaccio original pode ser visto como uma espécie de 4-3-3 sem laterais. Os jogadores eram distribuídos da seguinte forma: um líbero fixo (quase uma contradição, afinal o líbero é um jogador “livre”), que pode ser comparado ao nosso “homem da sobra” do 3-5-2 brasileiro; à frente deste líbero fixo, três zagueiros não menos rígidos; e logo depois do paredão de quatro zagueiros, um volante complementava o bloco defensivo.

No meio-campo, uma linha à frente do volante, posicionavam-se dois meias mais abertos, ainda no campo defensivo. E na frente, três atacantes: dois pontas e um centroavante. Notem no diagrama tático que ilustra o post a grande concentração de jogadores centralizados no campo defensivo, e o espaço entre eles e os atacantes.

Segundo Franco Ferrari, autor do livro citado e instrutor da escola de treinadores da Uefa, o Catenaccio variava o sistema de marcação entre o individual e a zona. E a estratégia de jogo assim é descrita por Ferrari: “o time estacionava no próprio campo, sempre com superioridade numérica, de maneira compacta e sem oferecer espaços; no momento da reconquista da bola, avançava-se em profundidade no campo adversário, com lançamentos longos”.

Sem a bola, retranca; com a bola, contra-ataque veloz. Abdica da posse de bola, atrai estrategicamente o adversário para o próprio campo, assume o risco da pressão, até encontrar o momento certo de encaixar uma precisa transição ofensiva. Foi esta estratégia que durante muitos anos influenciou o futebol italiano, e fez esta escola clássica ser conhecida mundialmente pelo defensivismo e pelo pragmatismo.

11. A gênese da catimba argentina nos anos 60

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Segundo o Inverting the Pyramid, tudo começou com a falsa impressão – entre os argentinos – de que eles praticavam um futebol de exceção, nos anos 50. Percepção que não se sustentava, pelo isolamento do futebol no país, distante dos confrontos com equipes estrangeiras e seleções. Não havia base de comparação.

Ainda no jurássico 2-3-5, a Argentina foi massacrada pela Checoslováquia na Copa de 58, por 6 a 1. Foram à Suécia acreditando-se os melhores, retornaram cheios de dúvidas. De imediato, importaram o 4-2-4 brasileiro, sem passar pelo estágio do W.M que já caía em desuso no Mundo. Abriam-se, portanto, às tendências táticas. Pretendiam evoluir.

Mas os reveses nas copas persistiram. Jogar bonito, ter técnica, procurar o gol, nada disto bastava. A Argentina buscava um padrão, uma característica, uma tradição. Como acontecera aos húngaros e austríacos da Danubian School, ou aos russos da desordem organizada, ou aos ingleses do W.M, ou até mesmo aos vizinhos brasileiros e seus virtuosos jogadores no 4-2-4.

Era preciso ter vontade de vencer. Ou melhor: vencer a qualquer custo. Aos poucos, os clubes argentinos começavam a aplicar ao 4-2-4 uma estratégia de jogo que para os perplexos olhos estrangeiros foi rotulado de anti-jogo, ou catimba. Ao invés de jogar bonito e tentar o gol, a meta passava a ser a marcação forte, o aguerrimento, e a fortaleza defensiva.

Essa característica tomou forma nas conquistas argentinas na Copa Libertadores, nos anos 60. Primeiro com o Racing, depois com o Estudiantes do técnico Zubeldia – equipe tricampeã continental, difusora de uma centena de folclores por eles negados, mas pelo mundo confirmados, de violência física (socos e chutes que até mesmo fraturas provocavam), intimidação psicológica (ameaças a adversários, uso de informações pessoais para desestabilizá-los), e a aplicação de agulhas (“pinchas”) para espetar adversários.

As intimidações relatadas por Jonathan Wilson chegam a ser, de tão absurdas, engraçadas. Comandados por Bilardo, volante que representava em campo as orientações de Zubeldia, os jogadores do Estudiantes esmeravam-se em desestabilizar os oponentes. Em um jogo, descobriu-se que um adversário manteve relacionamento quase incestuoso com a mãe, recém-falecida. Um jogador do Estudiantes se aproximou dele e falou – segundo o Inverting the Pyramid: “parabéns, até que enfim você conseguiu matar a própria mãe”.

Mas o Estudiantes tricampeão da Libertadores não era apenas o precursor da catimba, representante de um futebol que ultrapassava a virilidade para chegar à violência. O time de Zubeldia trouxe à Argentina duas inovações estratégicas aplicadas ao 4-2-4: a marcação-pressão e a linha de impedimento. O Estudiantes se adiantava, mesmo sem a bola posicionava-se à frente da própria intermediária. Retirava espaço do adversário, e combatia quem recebia a bola com dois ou três jogadores. Os pontas – La Bruja Verón e Ribaudo – auxiliavam a preencher o meio-campo, como faziam os “tornantes” do catenaccio italiano (wingers avançados com a bola, recuados sem ela).

Os recursos de anti-jogo ficaram, entretanto, mais conhecidos do que a linha de impedimento e a marcação-pressão adiantada em função dos confrontos com os clubes europes, em dois jogos, nas finais dos Mundiais Interclubes.

12. O futebol total do carrossel holandês

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Segundo Jonathan Wilson, o futebol total holandês se baseava em duas premissas principais: linha de impedimento e marcação sob pressão alta. A estratégia era adiantar o posicionamento inicial de todos os jogadores, sufocando o adversário, ocupando espaços e diminuindo o tempo necessário para o time rival pensar o jogo.

Mas a principal novidade tática eram as trocas de posições verticais. Princípio diferente da desordem organizada dos russos, já analisados aqui, que primavam pelas inversões de posicionamento horizontais – setorizadas, portanto: atacantes saindo da direita para a esquerda, meias fazendo o mesmo. Inversões de lado a outro, sem modificar a formação dos setores (defesa, meio e ataque).

Na Holanda – primeiro com o Ajax (conforme diagrama tático que ilustra o post), depois com a Seleção Nacional – o técnico Rinus Michels instituiu as trocas verticais. Dividido o campo em esquerda, direita e centro, eram nestas faixas que os jogadores invertiam posicionamento. Uma estratégia muito mais difícil de ser diagnosticada pelo adversário.

O básico, ainda utilizado até hoje, é passar o ponta-direita para a esquerda, e o canhoto para a destra – por exemplo. Movimento que não desorganiza o adversário. Agora, se o lateral se torna ponta, se o ponteiro recua para a linha defensiva, se o meia vira líbero, e o líbero aparece na área, aí a marcação adversária – principalmente se houver perseguição individual – naufraga.

O sistema tático era o 4-3-3, mas com um desenho que poderia ser desdobrado em 1-3-3-3: um líbero, três defensores, três meio-campistas, e três atacantes. As inversões de posicionamento se davam, portanto, entre os três jogadores da esquerda, os três da direita, e os quatro do meio-campo. As mais características aconteciam na faixa central, com Cruyff recuando e abrindo espaço para Neeskens, ou com o líbero Hulshoff avançando de surpresa.

No 4-3-3, com líbero, linhas adiantadas, marcação sob pressão alta, uso da linha de impedimento, inversões de posicionamento verticais, estes eram os princípios básicos do futebol total holandês. Acrescidos, é evidente, pela inteligência de Rinus Michels e de seus jogadores: o primeiro, capaz de planejar tal organização complexa; e os demais, de compreender e executar.

13. Brasil de 1970: o último romântico

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O time treinado por Zagallo é o protagonista do capítulo “Fly Me to the Moon”, na obra que apresenta a história e a evolução das táticas no futebol. Jonathan Wilson destaca que o Brasil de 70 é o último dos times que abriu espaço para todos os seus bons jogadores. Zagallo, com muita inteligência, soube encontrar espaço na Seleção Brasileira para cada um dos craques do momento. E conviveu, à época, com dilemas que colocavam Gérson e Rivelino como concorrentes a uma posição, assim como Pelé e Tostão – entre os quatro, alguns diziam, apenas dois poderiam jogar.

A solução de Zagallo se deu a partir do recuo de Gérson, que passou a desempenhar uma função na Itália conhecida por “regista” – uma espécie de segundo volante responsável pela saída de bola qualificada, com passes curtos ou longos, regendo a transição ofensiva. Clodoaldo assumia a responsabilidade de proteger a dupla de zagueiros, que tinha aos lados dois laterais distintos: pela direita, o apoiador Carlos Alberto; na esquerda, o marcador Everaldo.

À frente de Clodoaldo e Gérson, distribuíam-se quatro jogadores ofensivos. Rivelino à esquerda, aproximando-se do trio formado pelo ponta Jairzinho, na direita, e pelos pontas-de-lança Tostão e Pelé, centralizados. Rivelino ocupava um lado, Jairizinho abria o corredor em diagonal para a passagem de Carlos Alberto no outro, e a dupla de frente tratava de acabar com a vida dos zagueiros adversários.

Esta formação, descrita no diagrama tático que ilustra o post, privilegiava os jogadores mais talentosos. Mesmo sob o risco de sobrepôr algumas características semelhantes, Zagallo encontrou lugar para atletas que nos clubes desempenhavam funções equivalentes. E o desenho resultante causa para Jonathan Wilson até mesmo uma certa indefinição:

“Era um 4-4-2, um 4-3-3, um 4-2-4, ou até mesmo um 4-5-1? Era todos, e nenhum. Era apenas jogadores em um campo, que se complementavam perfeitamente. Modernamente, poderia muito bem ser descrito como um 4-2-3-1, mas tais sutilezas não significavam tanto na época”, analisa Jonathan Wilson.

É uma analogia interessante. O desenho lembra o 4-2-4 campeão em 1958. Mas o posicionamento inicial de Rivelino também sugere a variação para 4-3-3 criada pelo próprio jogador Zagallo, entre 58 e 1962. Alguém pode ainda ver um 4-4-2, considerando Jairzinho um meia. Ou então enxergar o 4-5-1 desdobrado em 4-2-3-1, com Tostão à frente de Pelé, Jairzinho e Rivelino. Eram os melhores jogando, no último suspiro do futebol romântico, onde há camisas suficientes para todos os craques, a despeito do sistema tático escolhido.

14. 3-5-2: a culpa é dos argentinos

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O pai do 3-5-2, segundo Jonathan Wilson, é Carlos Bilardo. Técnico da seleção da Argentina na Copa de 1986, ele sempre teve predileção por estratégias cautelosas. Para ele, um time de futebol precisa de sete jogadores defendendo, e três atacando. Obviamente, o futebol é um esporte que tem um dinamismo inclusive nas “invenções”, e o próprio Wilson identifica iniciativas anteriores à de Bilardo, como a Dinamarca de Piontek desde 1984 utilizando o sistema que poderia ser desdobrado em 3-1-4-2.

A criação do 3-5-2 partiu do seguinte raciocínio: frente à extinção dos pontas, na transição do 4-3-3 para o 4-4-2, por que manter laterais presos à linha defensiva? Não havia, na teoria, quem ser marcado no setor. A partir daí, Bilardo desenvolveu o novo sistema tático, que revolucionou o futebol mundial no final da década, e no início dos anos 90.

Pelos lados, havia três opções: utilizar meio-campistas – como preferiu Bilardo, com Olarticoechea e Giusti; laterais ofensivos, como fez a Alemanha na copa seguinte, com Brehme e Reuter; ou laterais defensivos, configurando o 5-3-2 – a inversão completa da pirâmide tática (afinal, o primeiro sistema tático organizado reconhecido era o 2-3-5, uma pirâmide de base alta).

No 3-5-2 da Argentina, Bilardo se dava ao luxo de manter sete jogadores defendendo, pela presença de Maradona. Em grande fase, o camisa 10 foi utilizado como um segundo atacante livre para se movimentar, ocupar espaços, driblar e levar o time para a frente. Valdano era o homem mais adiantado, e Burruchaga o meia de aproximação, completando o trio ofensivo.

Mas, como era novidade, Bilardo fez mistério. Atuou na primeira fase inteira no 4-4-2, e passou ao 3-5-2 contra a Inglaterra, no mata-mata. Fez sucesso. Combinar um meio-campo ocupado por cinco jogadores, abolir os laterais, e recuperar a figura do líbero pós-Copa de 1966, difundida pela Holanda de Cruyff, abriu um grande precedente entre equipes e seleções. Virou moda. Todos passaram a usar. Principalmente na Itália, onde este “5-3-2″ quase lembrava um catenaccio.

O contexto é muito oportuno, como bem Jonathan Wilson ampara em números: a Copa de 1990, abarrotada de seleções no 3-5-2, teve a pior média de gols da história. Foi uma copa “feia”. Cruyff disse que a substituição dos pontas pelos alas significava a “morte do futebol”. A Euro 92 teve média de gols ainda mais baixa. A Fifa procurou mudar regras para o futebol voltar à vida.

Aos poucos, o 3-5-2 caiu em desuso. Menos no Brasil, onde a prática cada vez mais comum influencia países vizinhos, como Uruguai e Paraguai. E há enclaves de resgate do 3-5-2 também na Itália. Ainda assim, é tido por Jonathan Wilson como um sistema ultrapassado e em extinção.

15. O 4-4-2 do Brasil na Copa de 1982

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O Brasil de Telê Santana jogava em um clássico 4-4-2 brasileiro, com dois volantes e dois meias criativos. Já se partia da tendência lançada poucos anos antes, do “quarto homem do meio de campo”, provocada pelo recuo de um dos pontas. À época, o humorista Jô Soares até pedia com insistência: “bota ponta, Telê”. A opinião pública estava acostumada a ver times e seleções no 4-3-3, mas o Brasil se adaptava a um sistema que lhe caberia muito bem, e por longos anos.

A base tática tinha uma linha de quatro defensores, protegida por dois volantes. A zona de articulação contava com Sócrates pouco mais centralizado, enquanto Zico avançava preferencialmente pela direita. A compensação se dava no ataque, onde Éder era o ponta remanescente, pela esquerda, tendo Serginho na referência de área.

A estratégia era diversificada. Ambos os laterais apoiavam, principalmente Júnior, que ora passava pelo lado, empurrando Éder para o centro, ora fazia a diagonal, permitindo a Éder se utilizar do corredor. Os dois volantes – Falcão e Cerezo – com técnica acima da média para a função, exerciam a saída de bola sempre pelo chão.

O Brasil jogava de pé em pé, com variações de jogadas, aproximações, triangulações, passagens, infiltrações. Era uma equipe sincronizada em seus movimentos ofensivos. Com jogadores qualificados e inteligentes. Pouco previsível pelos adversários, embora algumas vezes vulnerável em função da própria vocação.

Dentro deste contexto, destoava o centroavante Serginho Chulapa. Telê não pôde contar com Careca e Reinaldo, dois jogadores que poderia participar destas combinações pelo chão, e também concluir. Serginho era apenas um definidor, oportunista, dependente dos demais. A eliminação, entretanto, logicamente não passa exclusivamente pela falta de um centroavante mais técnico. Mas este fator contribuiu, assim como a ausência de um goleiro de exceção, para a eliminação quase inacredítavel da Seleção para uma Itália que tinha o declinante gioco all’italiana.

16. O surgimento do 4-4-2 britânico no Liverpool

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A estratégia aplicada a este 4-4-2 em duas linhas nasceu em 1973, no Estádio Anfield Road, casa do Liverpool. Após derrota para o Estrela Vermelha por 2 a 1, que provocou a eliminação na Champions League, dirigentes e integrantes da comissão técnica dos Reds se reuniram para buscar as causas do insucesso. E diagnosticaram: o “pessoal do continente” sabia como ninguém controlar a posse de bola.

Era preciso aprender a jogar com a bola nos pés. E, para isso, a equipe precisaria se compactar. Formar duas linhas, adiantar a primeira, compactar um pelotão de oito jogadores. Assim, o Liverpool teria linhas de passe. A ideia que justificou este planejamento tático partia do seguinte princípio: o jogador que tivesse a bola contaria sempre com pelo menos duas ou três opções de passe curto. Os Reds jogariam sem pressa, trocando passes no campo adversário, “rodando” o jogo, “girando” a bola, de pé em pé, até desorganizar a defesa adversária, abrir espaços, e conseguir uma infiltração pelo chão.

Os pensadores do Liverpool também imaginaram que esta iniciativa de controle da posse de bola deveria partir da defesa. Zagueiros trombadores, sem qualidade, foram trocados por defensores com capacidade de fazer o primeiro passe. A partir dali, os meias-centrais – com opções próximas na direita, na esquerda, à frente, atrás – poderiam antever os próximos movimentos da equipe. E promover uma linha de passe que levasse o Liverpool ao gol adversário.

Este ideal estratégico do 4-4-2 em duas linhas, entretanto, foi adaptado rapidamente à necessidade de times menores. Watford e Wimbledon obtiveram sucesso utilizando-se deste sistema para jogar em contra-ataques. O contrário do que propunha o Liverpool.

Agrupar-se não para trocar passes, e sim para retirar espaços. Adiantar as linhas de marcação e forçar com pressão alta o erro adversário. Recuperada a bola, aqueles jogadores de defesa com qualidade fariam o passe longo na direção dos wingers, em transições ofensivas fulminantes. Logo a figura do centroavante de referência foi incluída nesta nova estratégia. Nascia o criticado estilo de jogo dos ingleses nos anos 80: ligação direta, força física na marcação, bola aérea, e pouca posse de bola.

Há pesquisadores que atribuem à seleção da Inglaterra na Copa de 1966 a criação das duas linhas. Na verdade, como o próprio Wilson explica no Inverting the Pyramid, os ingleses apresentaram naquele Mundial o primeiro 4-4-2 que se tem registro, mas com desenho em losango no meio-campo. Não era, portanto, o 4-4-2 britânico, que nasceria sete anos depois em Anfield Road.

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