Análise: Bélgica 2 x 1 Brasil – Copa do Mundo 2018

2018-12-10T10:15:17+00:00 9 julho, 2018|0 Comments

Chamou a atenção de todos que acompanharam a Bélgica desde agosto de 2016, quando Roberto Martínez assumiu o cargo de treinador da seleção nacional, a alteração da estrutura defensiva apresentada no confronto das quartas-de-final da Copa do Mundo 2018. Se durante quase dois anos no cargo Martínez havia estabelecido o 3-4-3 como sistema padrão, defendendo-se em 5-4-1 (ou, como diria o auxiliar de Tite, Cléber Xavier, em 5-2-2-1 – devido ao baixo comprometimento defensivos dos atacantes de lado Hazard e Mertens), houve uma pequena reforma na vitória de 2×1 sobre o Brasil. Mas apenas na fase defensiva.

Como é de praxe nas equipes que passaram a se utilizar deste 3-4-3 e suas variações, recentemente consagrado por Antonio Conte no Chelsea, a fase ofensiva desenha um 3-2-5. Forma-se aquela “grande roda de bobo”, com zagueiros espalhados na saída de 3, alas abertos e adiantados, e o trio ofensivo dando profundidade, com os dois volantes por dentro. Este comportamento não se alterou na Bélgica das quartas-de-final:

Na imagem acima, em jogada que origina o escanteio do 1º gol belga, De Bruyne sai da posição mais central do ataque para participar da construção, enquanto Fellaini se projeta, mantendo o 3-2-5 com Hazard e Lukaku (este, fora da imagem, aberto na esquerda de ataque).

A grande alteração foi na fase defensiva. Desfazia-se a estrutura de três zagueiros, armando uma linha de quatro, seguida de um tripé de meio-campistas, e três atacantes à frente: um 4-3-3 clássico (revelado na imagem abaixo). Como De Bruyne foi o atacante central, com liberdade de movimentação – a figura conhecida do falso 9 – alguns analistas viram um losango, mas para mim De Bruyne partia da frente para recuar, e não o contrário, portanto reconheço um 4-3-3. Vale destacar, entretanto, que a fria numerologia não é o mais importante na análise, serve apenas de referência para entendermos os movimentos e comportamentos.

Na estrutura anterior, Chadli estaria alinhado à defesa, com Lukaku adiantado e Hazard/De Bruyne à frente da linha de volantes, ora marcando lateralmente, ora formando um quadrado no meio (a já citada variação defensiva entre 5-4-1 e 5-2-2-1). Como sempre destaco, o mais importante na análise tática é encontrar os porquês, ou seja, as respostas que expliquem os comportamentos identificados. Então…porque Roberto Martínez fez estas mudanças na fase defensiva?

Em função do estudo do adversário, é a resposta principal, seguida de muitas justificativas: percebendo que, durante a Copa, o Brasil adotou um ataque posicional (jogadores em geral estabelecidos nos seus espaços, independentemente da posição da bola), o treinador belga criou referências quase individuais de marcação. Acredito que o ataque posicional tenha lhe dado segurança para configurar encaixes que não resultariam em desorganização/abertura de espaços, afinal, os alvos estariam restritos a determinados setores (Willian sempre aberto na direita, Marcelo sempre aberto na esquerda, Paulinho sobre um corredor interno no centro/direita, Jesus na referência, Coutinho e Neymar variando nas posições internas do triângulo com Marcelo – um entrelinhas, o outro na base…).

Desta forma, o 4-3-3 nada mais foi do que uma estrutura desenhada em função do ataque posicional brasileiro, uma projeção da Bélgica sobre os adversários. Com isso, casou laterais com extremos (Meunier e Neymar, Vertonghen e Willian), um zagueiro em Jesus e o outro sobrando (Alderweireld e Kompany), dois meias internos pegando os meias brasileiros (Fellaini em Coutinho, e Chadli – a “jogada de mestre” desta estratégia – fechando as subidas de Paulinho) e De Bruyne recuando sobre Fernandinho, deixando os dois zagueiros livres, como podemos ver nas duas imagens abaixo:

Notem que, na 2ª imagem acima, tanto Chadli como também Fellaini estão de costas para a bola, ambos procurando contato visual com seus alvos PREFERENCIAIS – Chadli mantendo Paulinho sob vigilância, e Fellaini monitorando Coutinho. Mas porque coloquei “preferenciais” em caixa alta? Porque não eram encaixes individuais “exclusivos”. Como disse antes, o ataque posicional do Brasil permitia que, no terço defensivo com a bola pelo lado, houvesse trocas circunstanciais de marcação.

Para que isso tivesse sucesso, duas contextualizações importantes: Lukaku na direita e Hazard na esquerda não acompanhavam os laterais brasileiros. Pelo contrário, a ordem era permitir que eles apoiassem para se manter adiantados ocupando este espaço, preparados para o contra-ataque; e Witsel não tinha um alvo preferencial, era uma espécie de coringa, para compensar a ausência de atribuições defensivas de Hazard e Lukaku.

Vejam que, ao passar Marcelo na esquerda, a Bélgica formava um quadrado de marcação no lado: o lateral Meunier responsável pelo alvo em amplitude (se não fosse Neymar, qualquer outro); Fellaini pegando o interior na base da criação (se não fosse Coutinho, qualquer outro); Witsel encaixando na linha de passe que se colocasse às costas de Fellaini; e o zagueiro Alderweireld muito próximo na cobertura. Ou seja, nesta zona do campo – corredor lateral no terço defensivo – os encaixes deixavam de ser individuais, e passavam a ser setorizados, dentro deste CAIXOTE com quatro marcadores – lateral, meia, volante e zagueiro.

Nesta 1ª imagem, Meunier está com Marcelo, Alderweireld vigia de perto Coutinho, e Fellaini pega Neymar. Witsel faz a cobertura. É um quadrado de marcação com superioridade de 4×3. Notem ainda que Chadli, por não estar no lado atacado, não abandona Paulinho, e assim fecha o corredor de subida pelo qual o camisa 15 brasileiro havia marcado um gol contra a Sérvia, Kompany pega Jesus e o lateral oposto sobra por trás:

Novamente vemos a Bélgica em superioridade, desta vez de 4×2, neste caixote pelo lado – isso porque Coutinho demora a se projetar. Com isso, Fellaini pega Neymar, Meunier pega Marcelo, Witsel espera Coutinho e Alderweireld sobra:

Mais uma vez podemos observar o caixote com superioridade de 4×3 pelo lado no terço defensivo elaborado pela Bélgica, bem protegida mesmo sem a participação de Lukaku. Agora, Meunier pega Jesus aberto, Witsel está com Neymar e Fellaini com Coutinho (Marcelo não passou), enquanto Alderweireld sobra. Como Willian ensaia uma flutuação, Chadli fecha sua linha de passe pela frente, mas mantém contato visual com Paulinho, podendo trocar de marcação sinalizando a um de seus companheiros livres (Kompany ou Vertonghen):

O mesmo acontecia no lado esquerdo de defesa, comportamento que foi menos observado porque Fágner apoiava menos do que Marcelo – parte natural do ataque posicional brasileiro, já que a amplitude na direita era papel de Willian. Vejam novamente a superioridade de 4×3 mesmo sem o retorno de Hazard: Chadli sai de Paulinho para pegar Fágner (lembrando que o encaixe preferencial era desfeito no terço defensivo de acordo com a leitura da jogada no lado atacado); Vertonghen pega Willian e o coringa Witsel completa os encaixes com Paulinho, enquanto Kompany aproxima bastante para a cobertura:

No 1º tempo, o único problema aconteceu quase aos 24min devido a um erro de leitura individual, desfazendo o caixote e liberando Marcelo – no entanto, Miranda errou o passe e a bola saiu. Witsel encaixou em Coutinho e assim liberou Fellaini para pegar Neymar, que flutuava. O lateral Meunier, ao invés de fazer a leitura e “entregar” Neymar a Fellaini, esperando Marcelo na posição mais recuada do quadrado de marcação, foi junto com o camisa 10 brasileiro e abriu o corredor. Se Miranda acerta o passe, Marcelo avançaria livre, com tempo e espaço, batendo de frente no 1×1 com Alderweireld, com boas chances de vitória:

Este plano, considerado arriscado por, na prática, defender-se com 7 jogadores, mostrou-se efetivo no 1º tempo. Mesmo deixando 3 jogadores à frente (De Bruyne fechando Fernandinho na saída, e depois baixando para pegar os rebotes completamente livre e iniciar contra-ataques, mais Lukaku e Hazard abertos), sempre estabelecia-se superioridade de 4×3 nos lados da área, referenciado pelo ataque posicional. Estava tudo sob controle, ao que parece.

É claro que o futebol se condiciona pelo resultado, e ao abrir o placar com um belo ataque à 1ª trave em escanteio (o gol foi contra, mas a jogada foi intencional, com Kompany antecipando Jesus e Fernandinho sem receber bloqueio) a estratégia belga assentou-se, produzindo boas oportunidades de contra-ataque, principalmente na direita com Lukaku, tendo em De Bruyne a peça chave para se desvencilhar de Fernandinho, pegar as sobras e construir as saídas rápidas de frente, desmarcado. Apesar disso, o gol de contra-ataque foi após um escanteio, não fazendo parte, portanto, deste plano da bola rolando – vale destacar que o 3º gol belga contra o Japão também foi contra-ataque de escanteio, ou seja, um padrão.

No 2º tempo o Brasil estancou os contra-ataques com encaixes individuais e postura mais agressiva com a bola. Foram 17 finalizações contra apenas uma, poderia ter empatado e até virado. Parece-me, entretanto, que a Bélgica contava com isso: manteve o plano original e assumiu o risco do bombardeio, condicionada pelo 2×0 parcial e tendo 45 minutos para defendê-lo. Como diria o treinador de Rocky Balboa, “não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar”. A Bélgica apanhou no final, mas ficou de pé e os dois socos no início da luta foram determinantes.

A grande atuação de Courtois endossou a confiança belga neste jogo mental/emocional, a cada defesa do goleiro a classificação mostrava-se mais próxima. Courtois influenciou tanto o jogo que não apenas tranquilizou seus jogadores como também interferiu nas finalizações brasileiras, afinal, nas claras chances perdidas, Renato Augusto e Coutinho erraram exatamente por tentar o último milímetro do canto do gol – senão, provavelmente pensaram, Courtois pegaria. Chutaram para fora.

Aqui vocês podem assistir à análise em vídeo destes comportamentos belgas:

Análise da Bélgica contra o Brasil na Copa de 2018 from eduardocecconi on Vimeo.

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