Mapeamento das defesas em escanteios na Copa do Mundo 2018

2018-12-10T10:09:59+00:00 18 julho, 2018|1 Comment

Depois de fazer uma análise comparativa das jogadas que originaram todos os gols marcados nas copas de 2014 e 2018, mapeei os tipos de marcação utilizados pelas 32 seleções que disputaram o Mundial da Rússia, este ano.

Como critério para diferenciar individual x zona, utilizo a predominância de jogadores em um ou outro modelo. Do contrário, todas as marcações teriam de ser consideradas “mistas”, porque é muito raro encontrar uma equipe – por exemplo – que faça encaixes individuais em escanteios e abra mão de 2 ou 3 jogadores distribuídos em zonas (em geral, na 1ª trave).

Leiam aqui as referências teóricas e os critérios utilizados -> post sobre Bolas Paradas.

Sob esta perspectiva, 25 seleções utilizaram marcação predominantemente individual na Copa do Mundo 2018 (78%, portanto), contra 6 com predominância de zona (19%) e apenas uma podendo ser considerada “mista” pelo equilíbrio na divisão de atribuições.

Com isso, é lógico que os 26 gols originados em escanteios tenham atingido mais as marcações individuais. Ainda assim, há um pequeno aumento de percentual. No total, 22 gols ocorreram sobre este tipo de marcação, representando 84,6%, contra 3 sobre defesas setorizadas e apenas 1 sobre a única distribuição mista.

As seleções que marcaram individual sofreram 14 gols em cabeceios, sendo 8 com finalizações na altura do pênalti, 4 na 1ª trave e 2 na pequena área (do meio para a 2ª trave); neste modelo houve ainda 3 gols finalizados com chute (2 na pequena área e 1 na 1ª trave), 1 contra (1ª trave) e 4 após uma intervenção defensiva – adversário apanhou o rebote e devolveu a bola à área (3 de cabeça na 2ª trave e 1 de rebote – chute de fora da área).

As que marcaram zona sofreram apenas 3 gols – e 2 deles foram sobre o Brasil (1 contra na 1ª trave e 1 dentro da pequena área, passando a 1ª trave); a outra seleção vazada em defesa setorizada foi a Alemanha contra a Coréia, em cobrança que passou rasante pela 1ª trave e foi finalizada em chute dentro da pequena área, na 2ª trave). A própria Coréia, mais a Croácia, a Dinamarca e a Islândia marcaram por zona e não sofreram gols em escanteios.

A única seleção considerada com marcação mista foi a Suíca, e ela sofreu 1 gol em cabeceio na altura do pênalti.

Abaixo pode-se observar imagens da marcação em escanteios de cada uma das 32 seleções, agrupadas por semelhança.

Vale destacar que isso não refuta a possibilidade destas seleções terem apresentado alguma distribuição diferente destas. São exemplos de momentos dos jogos, para ilustrar estratégias defensivas em escanteios, sem determinar que foi apenas desta forma – até porque o comportamento do adversário costuma condicionar respostas previamente planejadas (se houver ameaça de curta, se entrar com mais de 5 jogadores na área, se aumentar/diminuir o rebote, etc).

Individual com 2 na trave e pelo menos 1 jogador à frente (8 seleções):

Este pode ser considerado o modelo mais básico da defesa em escanteios, simples e direto nos princípios: 2 jogadores posicionados para “marcar a bola” na 1ª trave e 5×5 individual, em geral deixando 2 no rebote e 1 adiantado para o contra-ataque – assim se distribuíram Peru, Arábia Saudita, Costa Rica, Sérvia, Rússia, Suécia (marcando com 6 porque o adversário entrou com 6 na área) e Colômbia; já Portugal deixava 1 no rebote e 2 à frente:

Peru

Arábia Saudita

Costa Rica

Colômbia

Suécia

Sérvia

Rússia

Portugal

 

Individual com 2 na trave e os 10 na ação defensiva (4 seleções):

O padrão é o mesmo das 8 seleções anteriores, delegando a zona da 1ª trave para 2 jogadores marcarem a bola, estabelecendo enfrentamentos individuais dentro da área – com o condicionamento do adversário na área (5×5, 6×6, etc) e fora dela (ameaças de cobrança curta, por exemplo).

Assim se comportaram Bélgica, Senegal, França e Panamá. Senegal, inclusive, proporcionando um dos melhores memes da Copa, com o jogador que se escorou na 1ª trave – como se estivesse pitando um cigarro enquanto espera o ônibus, de mão à cintura – apenas assistindo à bola cabeçeada por Mina passar a centímetros dele.

Bélgica

França

Panamá

Senegal

Variações com predominância individual e 2 setorizados (2 seleções):

Inglaterra e Marrocos pegaram este modelo básico do “2 na trave e 5 contra 5 na área” e apresentaram modificações.

A Inglaterra manteve 1 jogador na 1ª trave, mas colocou o lateral Trippier na 2ª trave – talvez para dar segurança às saídas de Pickford, dando cobertura a eventuais saídas.

Curiosamente, entretanto, Trippier participou do gol da Colômbia em escanteio, quando Mina cabeceou em sua direção, ele não afastou e ainda “atrapalhou” a defesa do goleiro. Este jogador na 2ª trave também pode “legalizar” jogadores que entrariam impedidos após um desvio, caso não reajam rapidamente – ou seja, é arriscado.

Marrocos também manteve 1 jogador na 1ª trave, mas adiantou 1 jogador para “marcar o batedor”, figura em geral utilizada para forçar uma trajetória mais aberta na cobrança.

Inglaterra

Marrocos

Individual com tripé na 1ª trave (4 seleções):

Irã, Egito, Japão e Espanha utilizaram outro elemento bastante comum das defesas com predominância individual em escanteios: o tripé na 1ª trave. São 3 jogadores defendendo este setor, enquanto os demais se dividem entre as marcações individuais, o rebote e eventuais ameaças de cobrança curta.

Duas curiosidades sobre a imagem abaixo: o Irã identificando em Sérgio Ramos o adversário mais perigoso, e assim estabelecendo marcação dupla sobre ele; e a Espanha, ao final da prorrogação, diante do ingresso de 7 adversários na área, entrando com 7 marcadores individuais e mantendo o tripé.

Irã

Espanha

Japão

Egito

Individual com 3 por zona em diferentes configurações (6 seleções):

Seis seleções marcaram com predominância de individual e tiveram 3 jogadores defendendo zonas, mas sem formar o tripé acima ilustrado.

Argentina, Polônia e Uruguai alinharam estes jogadores – Argentina e Polônia distribuindo-os ao longo de toda a pequena área, e o Uruguai mais focado na 1ª trave; Tunísia recorreu aos “2 na 1ª trave convencionais”, mas posicionou um 3º jogador no centro da área; já Austrália e Nigéria também usaram os 2 na 1ª trave, acrescentando o 3º jogador na 2ª trave (como fizera a Inglaterra).

Argentina

Polônia

Uruguai

Tunísia

Nigéria

Austrália

 

“Mindgame” de Osório em escanteios:

Não é de hoje que o treinador Juan Carlos Osório condiciona mentalmente seus adversários em escanteios defensivos. Repetiu no México o que fazia no São Paulo e no Atlético Nacional. Ele simplesmente esvazia a própria área, o que leva o oponente a se preocupar mais com um eventual contra-ataque cedido do que com a oportunidade de marcar um gol.

Em geral Osório deixa apenas 4 na área, com mais 1 jogador “marcando o cobrador” para condicionar a trajetória mais aberta da batida. Outros 3 ficam no rebote e mais 3 ficam na divisória com o campo de ataque, dois deles abertos.

Ao invés dos adversários entrarem com, vamos supor, 7 jogadores na área para ter superioridade sobre apenas 4 (nem que seja para ver como ele reagiria diante deste cenário) e fazer o gol, todos optam por se defender, recuando 4 para marcar os 3 adiantados, e assim a área esvazia. Osório sempre ganha esse jogo mental.

Contra o Brasil, inclusive, mesmo cedendo ao mindgame do treinador mexicano, nossa Seleção por mais de uma vez quase sofreu gol em contra-ataque de escanteio a favor.

México

 

Predominância de marcação por zona (6 seleções):

Apenas Alemanha, Brasil, Coréia do Sul, Croácia, Islândia e Dinamarca optaram pela marcação predominantemente setorizada em escanteios. E cada uma com uma distribuição específica.

Entre estas seis, Alemanha e Brasil foram as que mais se pareceram – curiosamente, as únicas que sofreram gols de escanteio sob este modelo defensivo. Enquanto a Alemanha mantinha 6 alinhados por zona (2 focados na 1ª trave e 3 na saída da pequena área), 3 bloqueadores na altura do pênalti (para evitar corridas e tomadas de impulso pelos adversários), 1 no rebote e 1 na frente, o Brasil defendia com os 10 na área (ao invés de 1 no contra-ataque, aumentou para 3 – tripé – na 1ª trave, de resto tudo muito parecido):

Alemanha

Brasil

 

A Coréia também fez algo semelhante, mais para o lado da Alemanha (também adiantou um para o contra-ataque), com a única diferença de ter um dos 5 setorizados encostado na 1ª trave, mesmo contra batedor de pé aberto:

Coréia do Sul

Croácia e Dinamarca também apresentaram semelhanças, com marcação “em dois níveis”, parecendo as linhas de scrimmage (4-3 ou 3-4) das equipes de futebol americano, ou algumas defesas setorizadas da NBA (3-2).

Com seus 10 jogadores na área, a Croácia marcava em duas linhas zonais, uma com 3 e outra com 4 jogadores, tendo ainda 2 bloqueadores e 1 responsável pelo rebote ou ameaça de curta; a Dinamarca invertia esse número – duas linhas, a primeira de 4 e a outra de 3, mas sem bloqueadores: acrescentava 1 jogador na 2ª trave, e tinha 2 no rebote, também com seus 10 de linha na área:

Croácia

Dinamarca

E a Islândia adotou um comportamento que eu só tinha visto nas equipes treinadas por Vanderlei Luxemburgo – apelidei à época de “cercadinho”. São 7 jogadores formando uma zona de proteção às saídas do goleiro – 1 na 1ª trave, 1 na 2ª trave e 5 alinhados. Com os 10 na área, teve ainda 1 bloqueador e 2 no rebote:

 

Suíça e a “marcação mista”:

Na literatura muitos autores só consideram zona ou individual uma espécie de “pureza” de princípio, o que na prática tornaria praticamente todas as defesas de escanteio mistas (2 na trave e 5 individual ou 8 zona e 2 bloqueios, embora totalmente diferentes, acabariam catalogados da mesma forma).

Como disse no início, prefiro identificar a predominância – se há grande supremacia de individual, é isto; se há grande supremacia de zona, é isto. Para mim é mais simples. Marcação mista seria quando houvesse equilíbrio. E foi praticamente o que se viu na Suíça.

Ela distribuiu 4 jogadores por zona – 2 na 1ª trave, 1 no meio da área e 1 na pequena área, mais próximo da 2ª trave – e 5 marcadores individuais, com 1 no rebote.

Suíça

Para ampliar as imagens e analisar melhor as marcações, basta clicar sobre elas. Quem quiser utilizar os dados aqui mapeados sinta-se à vontade, creditando à Performance – Análise de Desempenho.

Um comentário

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