“Mas será que os jogadores entendem essa história de losango, linha, quadrado…?”, questionam os céticos e detratores da análise tática, no comum afã humano por atacar e diminuir aqueles/aquilo que não compreendem. A resposta está no campo, quando qualquer observador capaz (não basta ver, mas saber ver, como já foi dito) consegue identificar não apenas os desenhos proporcionados pelo posicionamento inicial dos jogadores, mas também os complexos movimentos e comportamentos que caracterizam o modelo de jogo das equipes.

Obviamente, a base de tudo é o treinamento. Os jogadores são diariamente estimulados a compreender as regras concernentes ao modelo de jogo em todas as suas fases – o que fazer nas mais diversas situações de posse, transições, posse do adversário ou bolas paradas. Com este acervo de informações, também são estimulados a tomar as melhores decisões, a cada fração de segundo, em sintonia com os companheiros e em confronto com os adversários.

O professor Pablo Juan Greco bem definiu esta relação entre jogadores, treinamento e tomada de decisão:

Do ponto de vista dos jogos esportivos coletivos, toda a decisão é uma decisão tática e pressupõe uma atitude cognitiva do jogador, que lhe possibilita reconhecer, orientar-se e regular suas ações motoras. Portanto, observa-se a necessidade de se compreender a importância do desenvolvimento do conhecimento através dos processos de ensino-aprendizagem-treinamento”.

Por isso o papel do treinador e de sua comissão técnica, cada vez mais multidisciplinar, é tão importante. Esta equipe de trabalho precisa construir um modelo de jogo ao mesmo tempo complexo e claro, criar atividades que transmitam este conteúdo nos treinamentos aos jogadores, analisar seus comportamentos nas partidas e buscar soluções constantemente. Fica evidente a necessidade de haver um modelo de jogo e um microciclo de treinos em mais alto nível.

Para Jorge Castelo, “os princípios de jogo estabelecem um quadro de referências para os jogadores, orientando o pensamento tático dos mesmos e, consequentemente, o comportamento tático-técnico com vista à resolução eficiente das diversas situações que a competição em si encerra”.

É evidente que dentro de campo “quem decide” é o jogador. Mas esta decisão, em cada lance, precisa estar amparada no acervo de referências adquiridas nos treinamentos, análises de vídeos, palestras e demais meios de estímulo ao jogador. Cria-se, desta forma, um pensamento coletivo, interligando as decisões de todos os jogadores entre si, fazendo com que o time mova-se como um organismo vivo, com as decisões de cada um sendo não apenas assimiladas, mas antecipadas pelos companheiros.

O professor-doutor Júlio Garganta produziu diversos artigos sobre inteligência de jogo e tomada de decisão, dos quais recortei muitos trechos para esclarecer este aspecto importantíssimo do desenvolvimento do jogo de futebol: a capacidade que o jogador tem de saber o que fazer, onde fazer, quando fazer, e como fazer.

Garganta, embora grande estudioso das complexidades táticas dos jogos desportivos coletivos, não ignora a presença da aleatoriedade e da imprevisibilidade no desenvolvimento das partidas, em especial do futebol. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o ingrediente do aleatório não isenta os jogadores do conhecimento tático. Na verdade, isso exige ainda mais inteligência de jogo, estimulando-os a prever até mesmo o imprevisível:

O futebol é considerado o jogo desportivo coletivo mais imprevisível e aleatório, características que resultam do envolvimento aberto, do elevado número de jogadores e da dimensão do espaço de jogo, bem como da duração do tempo de jogo. Neste sentido o jogo de futebol reclama dos praticantes uma elevada capacidade perceptiva e maiores exigências relativamente à componente visual que os restantes jogos desportivos coletivos”.

Seguindo o caminho dos ensinamentos do professor Garganta, ele reitera a necessidade de desenvolvimento desta “inteligência de jogo” para que o atleta tome as decisões certas:

O sucesso nos jogos táticos depende largamente do nível de desenvolvimento das faculdades perceptivas e intelectuais dos atletas, especialmente em associação com outros fatores que determinam a performance. Em cada ação o jogador avalia as possibilidades de êxito e prepara mentalmente a ação a realizar em função da antecipação do comportamento dos adversários e da ação que os companheiros preveem realizar-se nesse contexto, exigindo-se decisões inteligentes através de processos cognitivos”.

Os pesquisadores J.E Rink, K.E French e B.L Tjeerdsma descreveram em um artigo sobre o aprendizado nos esportes e jogos, relacionando traços cognitivos e motores que levam a se identificar o jogador mais capaz de tomar boas decisões – e executá-las – devido à sua inteligência de jogo e refino técnico:

– Conhecimento declarativo e processual mais organizado
e estruturado;
– Processo de captação de informação mais eficiente;
– Processo decisional mais rápido e preciso;
– Mais rápido e preciso reconhecimento dos padrões de jogo (sinais pertinentes);
– Superior conhecimento tático;
– Maior capacidade de antecipação dos eventos do jogo e das respostas do oponente;
– Superior conhecimento das probabilidades situacionais (evolução do jogo);
– Elevada taxa de sucesso na execução das técnicas durante o jogo;
– Maior consistência e adaptabilidade nos padrões de movimento;
– Movimentos automatizados, executados com superior economia de esforço;
– Superior capacidade de detecção de erros e de correção de execução.

Estas informações nos permitem estabelecer um paralelo com aqueles que ironizam a capacidade de um jogador assimilar instruções que eles próprios (jornalistas formados em curso superior, por exemplo) não conseguem. Recorro a mais uma citação do professor Júlio Garganta para que se compreenda essa diferença:

O indivíduo que sabe jogar é um indivíduo conhecedor, não no que diz respeito a conhecimentos acadêmicos, mas no que se refere a convenções interativas, nas quais saber fazer, e saber quando fazer, são o mesmo saber”.

Com o desenvolvimento desta inteligência de jogo, através dos estímulos transmitidos em elaborados treinamentos e demais meios de levar a informação ao grupo de atletas, os jogadores precisam tomar as decisões certas durante a partida. Segundo Garganta, este aspecto é um dos mais importantes para o êxito da equipe.

Como já foi dito, estes estímulos táticos de forma alguma agem no sentido de desconstruir a criatividade. Pelo contrário, a técnica e a habilidade estão a serviço deste processo, auxiliando o jogador a encontrar soluções favoráveis mesmo que em momentos imprevisíveis. Ou seja, até o improviso pode ser treinado e estimulado, permitindo que o jogador tome boas decisões mesmo frente a situações inesperadas. É como escreveu Garganta no longo trecho abaixo:

Os comportamentos dos jogadores e das equipes, embora repousando sobre uma organização sustentada numa isonomia de princípios (os mesmos princípios valem para todos) movem-se entre dois pólos: o vínculo, ou seja, o estabelecido, as regras; e a possibilidade, a inovação. O jogo existe, portanto, na confluência de uma dimensão mais previsível, induzida pelas leis e princípios do jogo, com outra menos previsível, materializada a partir da autonomia dos jogadores, que fomentam a diversidade e a singularidade dos acontecimentos, a partir do confronto entre sistemas concorrentes, caracterizados pela alternância de circunstâncias de ordem e desordem, estabilidade e instabilidade, uniformidade e variedade”.

Integrante das equipes multidisciplinares vinculadas às comissões técnicas, o setor de Análise de Desempenho tem papel importante na difusão do conhecimento sobre o modelo de jogo do próprio time e dos adversários, oferecendo conteúdo relevante aos jogadores. Com mais informações, observando vídeos e recebendo feedbacks, ele consegue agregar mais elementos para auxiliar nas tomadas de decisão, desenvolvendo seu entendimento sobre o jogo.

Garganta ressalta a importância não apenas dos treinamentos, mas deste fluxo de informação sobre o jogo, para incrementar o conhecimento e estimular os jogadores a tomar as melhores decisões – de acordo com o modelo de jogo, em sintonia com os companheiros, nos momentos e espaços certos, com execução técnica e em confronto com as vulnerabilidades do oponente:

Outra tendência que se perfila prende-se com o incremento da informação sobre a performance, de modo a facilitar e a tornar mais eficaz a tomada de decisão sobre as táticas de jogo e os modelos de preparação para os operacionalizar. Por isso, a análise dos comportamentos dos jogadores e das equipas estende-se, cada vez mais, aos processos de treino, procurando-se avaliar a efetividade de programas, no que respeita à respectiva congruência com as ideias/conceitos de jogo que se pretende implementar”.

Pesquisador da área do design estratégico, o pesquisador Francesco Zurlo, no artigo “Design Estratégico”, fala sobre a importância do entendimento do modelo por todos os envolvidos para ser eficaz. Referia-se ao meio empresarial, mas é um conceito facilmente extrapolável ao futebol, tomando-se por “todos os envolvidos” a comissão técnica e os jogadores, tanto no entendimento do próprio modelo, como no do futuro adversário. O que evidencia a importância da análise de desempenho na difusão de conteúdo relevante:

“O modelo é eficaz quando seus pressupostos são explícitos e bem comunicados dentro da organização. E é igualmente eficaz quando está em sintonia com: a identidade do grupo, a verdadeira ideia que o grupo tem de si, o conjunto de competências dominantes, os comportamentos reais”.

No futebol a inteligência de jogo – fortemente vinculada ao entendimento do que se deve fazer, como e quando fazer – foi durante muito tempo subestimada. Mas em outros esportes coletivos, com destaque para o futebol americano, a compreensão sobre a importância dos treinos e da análise de desempenho para estabelecer um fluxo de informações e de estímulos elaborados é enorme e evidente.

É bastante comum nas transmissões da NFL percebermos à beira do campo, enquanto a equipe ofensiva tenta marcar pontos, os jogadores de defesa analisando fotos impressas ou em tablets, para identificar eventuais erros, pontos vulneráveis ou virtudes do adversário, e assim preparar-se para tomar boas decisões.

Existem inclusive o termo “read option”, conceito aplicado fortemente nas ações ofensivas, mas também nas defensivas, em jogadas que exigem dos jogadores leituras instantâneas do comportamento adversário, para que a decisão seja tomada em uma fração de segundos sob o cruzamento das duas ou três alternativas treinadas e previstas frente aos movimentos revelados pelos oponentes.

Digo isso para citar o treinador de futebol americano Howard Schnellenberger, que também escreveu sobre inteligência de jogo e tomada de decisão nos esportes coletivos:

A tomada de decisão consiste na capacidade de tomar decisões rápidas e taticamente exatas, constituindo uma das mais importantes capacidades do atleta. Ela determina muitas vezes o sucesso dos jogos técnico-táticos e é frequentemente responsável pelas diferenças na performance individual”.