Tem sido tão grande e tão veloz a evolução tática no futebol (evolução no sentido de encadeamento de fatos, sucessão de transformações, e não necessariamente no sentido de “melhoria” ou “aprimoramento”) que em poucos anos paradigmas tidos por irreversíveis são quebrados. Aumentaram exponencialmente a produção de conhecimento teórico e a aplicação prática destas inovações por treinadores extraclasse.

Também é cada vez mais farta a disseminação de tecnologias – hardware e software – para a análise, aprofundando a interpretação de dados com mapeamentos ultra-detalhados, quantitativos e principalmente qualitativos. Assim como os processos de treino acompanham esta acelerada evolução. Um a reboque do outro, todos levando o futebol a um elevado grau de excelência tática.

Há poucos anos o posicionamento inicial dos jogadores era determinante para se diagnosticar o sistema tático das equipes. Reconhecer o estatuto posicional dos jogadores (a “soma” das regiões do campo por eles ocupadas com as funções desempenhadas) bastava. Sem a bola, todos voltavam para os posicionamentos de origem, formando um desenho claro e que poucas variações proporcionava com a bola.

Segundo o português Júlio Garganta, em referência a este passado recente do qual falávamos, “no futebol o conceito de sistema tem sido utilizado com um significado diverso. O que frequentemente se designa por sistema de jogo ou sistema tático, e se descreve através de siglas como 4-2-4, 4-3-3, 4-4-2, W.M, etc., restringe-se a um dispositivo, a uma distribuição topológica dos jogadores pelo terreno de jogo, de acordo com o respectivo estatuto posicional”.

Entretanto, as equipes passaram a assumir formações quase distintas nas fases de posse e sem a posse, impulsionadas – acredito – pela ênfase nas transições, em especial a partir da perda da bola. E também, como já foi dito, pela união de treinadores-pensadores-inovadores com maior produção de conhecimento, treinos de vanguarda e maior aparato tecnológico.

Começamos a ver José Mourinho “resolver” o problema defensivo dos pontos-cegos do 4-2-3-1 (a grande distância entre laterais e extremos, expondo os volantes e exigindo movimentos coletivos de compensação) ao fazer o time jogar em 4-2-3-1, mas marcar em 4-4-2 com duas linhas de quatro. Hoje, praticamente não há time partindo do 4-2-3-1 que não se defenda em duas linhas de quatro.

Simultaneamente, vimos Guardiola – ainda no Barça, depois no Bayern – promover sensíveis alterações estruturais na comparação entre a defesa posicional e o ataque posicional de suas equipes. Partindo em geral de um 4-3-3 para se defender em 4-1-4-1 e para atacar em 2-3-5 (a reinversão da pirâmide).

Deparamo-nos, então, com um dilema: como definir o sistema tático destas equipes? E, daí em diante, para uma reflexão ainda mais contundente: qual a relevância de se determinar um sistema, um rótulo, se as equipes são cada vez mais híbridas?

Vejam este frame ofensivo do Borussia Dortmund do técnico Thomas Tuchel em confronto de ida contra o Liverpool pela Liga Europa da temporada 2015/16:

Aparentemente, podemos supôr que o Borussia atue no 4-4-2 losango (ou 4-3-1-2). Weigl de primeiro volante, Mktharyan de enganche (meia de ligação), Reus e Aubameyang de atacantes, e pelos lados, como “carrilleros” (médio-apoiadores, meias internos, segundos volantes, como queiram), Castro pela esquerda e Durm pela direita.

Vejam agora, entretanto, o comportamento do 37-Durm quando o Borussia está na fase defensiva. E, em consequência, de seus demais companheiros de meio-campo:

Ele simplesmente entra na linha defensiva e age como um ala, enquanto Mkhtaryan sai do centro para formar um tripé de contenção no corredor central, desenhando na prática o sistema 5-3-2. Ele guarda o setor, sem se expor ao combate, “segurando” na base enquanto espera o meia se dirigir e fazer a abordagem ao portador.

No lado contrário, porém, o 27-Castro não descia à linha defensiva. Era o lateral Schmelzer quem esperava para abordar pelo lado, enquanto o volante do setor mantinha-se na diagonal para o centro. Uma basculação (balanço, direcionamento) em 5-3-2.

E agora? Dizemos que o Borussia partiu do 5-3-2, ou do 4-3-1-2? Ou pior: seria o frame da fase ofensiva um “frame oportunista”, congelando a imagem em um momento pouco representativo sobre o todo?

Voltemos à teoria, citando novamente Garganta:

No futebol moderno mantém-se a denominação dos jogadores segundo o seu posicionamento no terreno de jogo (defesa, médio, atacante). No entanto, esta nomenclatura, baseada na posição ocupada pelo jogador no terreno, designa apenas o seu papel dominante, pois que, dadas as exigências atuais do futebol, a atividade dos jogadores, ao longo do jogo, transcende largamente o limite imposto por aquela denominação. Deste modo, cada vez mais se esbatem as fronteiras entre os papéis de defensor, médio e avançado. A diferenciação de papéis e funções não se realiza tanto a partir da participação, ou não, de determinados jogadores nas fases do ataque e da defesa, mas sobretudo a partir das características dessa participação, face às configurações particulares do jogo em determinados momentos e zonas do terreno”.

Em resumo, citando agora o francês Jean-François Grehaigne, autor de diversos livros sobre o ensino do futebol e o estudo da tática:

Conhecer o dispositivo não implica conhecer o modo como ele funciona”.

Isto remete à importância da análise de desempenho fixar-se cada vez mais em comportamentos e interações, ou seja, interpretar dados e movimentos dentro de um contexto, identificando e apontando tendências, sem o determinismo e o protagonismo do sistema inicial em si. Na análise do Borussia, nesta partida específica, as formações de defesa (5-3-2) e de ataque (4-3-1-2) são mais importantes do que a identificação de um ponto de conexão fixo entre elas. E, ainda melhor, os comportamentos dos jogadores nestas fases, as interações entre eles, as sincronias de movimentos, são o que mais importa.

Pois vejamos o papel do 37-Durm nesta partida. Além de defender na linha do lateral-direito Piszcek, ele foi o grande responsável por garantir a amplitude máxima na fase ofensiva, absolutamente aberto sobre a linha lateral, em profundidade. Nota-se que este comportamento encontrou sincronia com o lateral-esquerdo Schmelzer – ambos oferecendo amplitude simultânea em profundidade quando o Borussia ocupou o campo do Liverpool, deixando Castro e Piszcek para o retorno/cobertura:

São duas imagens da fase ofensiva apresentando o mesmo comportamento – 37-Durm em amplitude e profundidade pela direita, enquanto o lateral do setor está por trás. E, estando a bola na direita, nos dois lances com Mkhtaryan articulando, a amplitude no lado oposto é concedida pelo lateral Schmelzer. Um padrão, portanto.

Assim que assisti a esta partida lembrei de um trecho do livro Inverting the Pyramid, no qual o jornalista inglês Jonathan Wilson descreve o 4-4-2 que a Itália utilizou na conquista da Copa do Mundo de 1982 – em especial, derrotando o 4-4-2 em quadrado do Brasil de Telê Santana – obra traduzida para o português pelo jornalista André Kfouri, e lançada no Brasil pela Editora Grande Área sob o nome “A Pirâmide Invertida”.

Provavelmente não foi esta a inspiração de Tuchel, mas notem como o papel do 37-Durm assemelha-se ao desempenhado por Bruno Conti no modelo de jogo conhecido e imortalizado pela alcunha “gioco all’italiana”:

Segundo Wilson, Conti desempenhava o papel de “tornante”, um jogador que ocupava toda a faixa lateral do campo, seja na fase defensiva – recuando até o final – seja na ofensiva, como um ponta. Era uma espécie de 4-4-2 “torto”, com um lateral apoiador na esquerda, um lateral-base na direita, um zagueiro-líbero e um ponta-extremo-ala na direita. Complexo, o sistema estava em declínio, e “acabou”após o título mundial.

Observado, compreendido, interpretado, contextualizado e descrito este comportamento do 37-Durm, o sistema inicial do Borussia fica em segundo plano frente à complexidade de movimentos que tornam a equipe híbrida. Para concluir, recorro novamente a trechos de textos do professor Júlio Garganta:

Todavia, a identificação da tática com os ‘sistemas táticos’ tem feito com que a importância atribuída aos designados sistemas de jogo seja sobrevalorizada. (…) Neste contexto, a organização das ações dos jogadores decorre de sistemas que não se restringem a uma estrutura de base, ou seja, a uma repartição fixa das forças no terreno de jogo, mas, pelo contrário, são configurados sobretudo a partir da evolução das funções. Importa, sobretudo, valorizar o caráter organizacional do jogo, na medida em que é a organização que produz a unidade global do sistema; é ela que transforma, produz, relaciona e mantém o sistema, concedendo características distintas e próprias à totalidade sistêmica. (…) Uma equipa possui uma anatomia e uma fisionomia mutáveis, que se vão configurando à medida que o jogo é urdido, sendo atravessada por formas e fluxos de energia e de matéria que evoluem no espaço e no tempo, para produzir informação. De acordo com este entendimento, é cada vez mais reconhecida a importância de se perspectivar o jogo como um confronto de sistemas dinâmicos complexos”.

Com sistemas complexos e híbridos, importa considerar os posicionamentos iniciais e identificar sistemas, mas sabedores destas transformações que as equipes cada vez mais apresentam na comparação entre as fases de posse e sem posse. O que torna mais importante a identificação dos comportamentos, das interações e dos movimentos.