Se na Organização Ofensiva os objetivos principais da equipe são manter a posse, progredir no campo adversário e finalizar, na Organização Defensiva se estabelece exatamente o contrário. Seguindo no mesmo caminho teórico, são estes os conceitos expostos pelo francês Claude Bayer na análise dos princípios operacionais defensivos do jogo de futebol:

Recuperação da posse de bola: ao mesmo tempo que é fundamental circular a bola de forma eficaz para encontrar espaços e caminhos até à baliza adversária, é também muito importante deixar que o adversário não o faça. Quanto mais depressa a recuperação da bola for feita, menos tempo terá o adversário para tentar chegar à baliza defendida pela equipe;

Contenção do avanço adversário: o adversário não pode avançar no terreno, nunca. Não quer dizer que não o consiga fazer, mas se avançar no terreno o menos possível, menores serão as oportunidades de que dispõe para tentar fazer o gol;

Defesa da meta: a meta é o espaço mais importante do campo. No futebol é a baliza. No basquete, é o cesto, e por aí afora. Qualquer equipe deve ter o caminho para a própria meta sempre fechado.

Júlio Garganta destacou no artigo “Dos constrangimentos da ação à liberdade de (inter) ação, para um futebol com os pés…e cabeça” a importância das interações entre os jogadores que defendem, para que a organização estrutural da equipe se mantenha, e assim seja possível ocupar de forma inteligente os espaços relevantes do próprio campo em qualquer dos sentidos de ação do adversário:

Por exemplo, o que permite a uma equipe estar equilibrada quando defende tem a ver, não só com a disposição dos jogadores no terreno, mas sobretudo com as possibilidades que existem de ligação entre esses jogadores no sentido de encurtarem distâncias entre si, de diminuírem as distâncias entre linhas (transversais e longitudinais) e, com isso, criarem e transferirem zonas de pressão junto da bola”.

O pensamento é o contrário do exposto na Organização Ofensiva. Se, com a bola, o time deve “espalhar-se”, abrir o campo e assim desorganizar o adversário, sem a bola a principal intenção é agrupar-se, concentrar-se e manter-se compacto.

É o que afirma o brasileiro Leitão:

Os princípios estruturais de defesa correspondem a uma intenção da equipe de tornar o espaço de jogo pequeno, com os jogadores próximos uns aos outros, para se ajudarem e diminuírem as linhas de passe do adversário, desorganizando-se o menos possível durante a fase de defesa”.

Aprofundando esta análise, Leitão enumerou em seus estudos oito princípios estruturais da Organização Defensiva, ou seja, as regras que ele acredita serem eficazes para nortear os comportamentos dos jogadores nesta fase do jogo, também encontrados no artigo de Frattini já mencionado:

  1. Temporização: segundo Leitão, é quando a equipe que defende aumenta o trajeto do adversário na direção do seu gol. O termo “temporização” dá uma ideia de “atraso”, ou seja, além de aumentar o trajeto em direção ao gol, a equipe diminui a velocidade do ataque adversário, aumentando também o tempo que ele levará para encontrar condições de finalizar, o que exige combate ao portador da bola e fechamento das linhas de passe próximas:

  2. Cobertura: é a possibilidade concreta de ação dos jogadores que não estão diretamente combatendo o adversário com a bola participarem do bloqueio à progressão em seu campo. Estas coberturas se estabelecem em linhas retas ou diagonais, tendo como referência a bola e o marcador que a pressiona. É um dos princípios estruturais defensivos de mais fácil percepção:



  3. Equilíbrio: é a disposição dos jogadores na fase de defesa levando em consideração as linhas laterais do campo, fazendo com que eles tenham possibilidades reais de ação em toda a largura do campo. Acredito que podemos utilizar como sinônimos, no futebolês, “compactação em largura” e “estreitamento”. Vemos o Chelsea atender a este princípio, em partida contra o City, na temporada 2017/18:



  4. Flutuação: é a capacidade que o time desenvolve de se movimentar coletivamente de uma lateral à outra do campo, conforme a circulação de bola realizada pelo adversário. Notem que o termo “coletivo” é essencial para a boa execução deste movimento, que conta com alguns sinônimos populares – balanço defensivo, gangorra, vai-vem, basculação, entre outros:



  5. Recuperação: é a transição defensiva, assunto que será abordado em um próximo capítulo. Segundo Leitão, “é a capacidade da equipe, quando perde a bola, retornar até um ponto de referência estabelecido pelo treinador“. Na verdade, em geral o processo de recomposição – um bom sinônimo para o termo – agrupa mais de uma premissa: enquanto os mais próximos pressionam a bola (ou para roubar, ou para temporizar/atrasar a ação do adversário) os mais recuados cobrem as zonas importantes do campo defensivo, e os mais adiantados recuam na intenção de reagrupar a estrutura:



  6. Compactação defensiva: é a capacidade que uma equipe tem de se manter agrupada, com jogadores próximos ocupando os espaços mais importantes no contexto da jogada. Muito importante para o êxito dos processos defensivos – atendendo ao sentimento de unidade, agindo como um organismo vivo – e de fácil observação pelo analista:

  7. Bloco: é o movimento coletivo vertical, seja para a frente, seja para trás. Ele acaba complementando e sendo complementado pela compactação e pelo equilíbrio. O que torna evidente que os princípios não se sucedem, mas sim ocorrem simultaneamente, até pela dinâmica do jogo. Tudo acontece ao mesmo tempo, levando o analista a filtrar o que realmente é importante e capaz de se tornar uma informação relevante no contexto do jogo.

    Este bloco pode se movimentar coletivamente, avançando na direção do campo adversário (bloco alto), posicionando-se a partir do meio-campo (bloco médio) ou atrás da intermediária defensiva (bloco baixo), mas sempre mantendo curta a distância entre as linhas (setores).

    No livro “La Pizarra de Simeone”, o técnico argentino afirma ao autor Marcos Lopez que no Atlético de Madrid sempre utilizou como referências as seguintes distâncias: bloco baixo entre 20 a 25 metros entre a linha de defesa e o jogador mais adiantado, bloco médio aumenta para 30 metros de distância, e bloco alto (segundo ele, o momento de maior risco defensivo devido a este espaçamento maior) em 45 metros de distância.

    Na imagem abaixo observamos os jogadores do Chelsea em partida contra o City na temporada 2017/18 acompanhando a trajetória de um passe de recuo e “subindo o bloco”, ou seja, movimentando-se coletivamente no sentido vertical:

  8. Direcionamento: é a capacidade de induzir o adversário a se movimentar para regiões menos importantes do campo. Em geral, protegendo o corredor central e levando o time rival a uma das laterais, onde se prevê alcançar superioridade numérica e disparar um gatilho para aumento da pressão:

São estes os oito princípios estruturais da organização defensiva enumerados por Leitão. Aqui, temos de forma resumida os princípios chamados fundamentais por Teoldo – novamente densos, complexos, rigorosos na geografia do terreno, e com terminologias acadêmicas às vezes pouco empregadas no futebol dos clubes:

Contenção: oposição ao portador da bola;

Cobertura: apoio ao jogador da contenção, por trás dele, dentro do centro de jogo;

Equilíbrio: movimentação nas zonas laterais da metade ofensiva do centro de jogo;

Equilíbrio de Recuperação: apoio à contenção dentro do centro de jogo na metade mais ofensiva – por trás do portador;

Concentração: movimentação no quadrante central anterior ao centro de jogo;

Unidade: movimentação nas zonas distantes – mais recuadas, adiantadas, ou corredor oposto.

É preciso, também, abordar um conceito extremamente importante para o sucesso de todos estes conceitos: a pressão sobre a bola. Com linhas compactas em largura e em profundidade, agrupadas em um curto espaço, é evidente que diversas regiões do campo ficam descobertas. Em contrapartida, o adversário na organização ofensiva procura – como já vimos – abrir o campo, posicionando jogadores em amplitude e profundidade.

Ora, se o time sem a bola concentra seus dez jogadores de linha no lado direito, com mais ou menos 30 metros de distância entre as pontas de seus setores, o adversário terá pelo menos mais 30 ou 40 metros para explorar no lado oposto, onde estará posicionado pelo menos um jogador em amplitude.

Para evitar que a bola chegue até ele, é indispensável que o portador da bola seja pressionado com intensidade, evitando que tenha tempo e espaço para acertar um passe longo na troca de corredor (inversão ou diagonal). Sem pressão sobre a bola, nenhum destes princípios estruturais será bem-sucedido.

Ou seja, é preciso agrupar-se, compactar-se, diminuir distância entre setores, procurar superioridade numérica ao redor da bola, fechar linhas de passe, direcionar o adversário para zonas menos importantes e, fundamentalmente, pressionar o portador da bola insistentemente.

Outros conceitos importantes da Organização Defensiva dizem respeito ao tipo de marcação, talvez o aspecto mais relevante na hora de analisar um futuro adversário, possibilitando identificar as virtudes e principalmente as vulnerabilidades de cada um dos métodos empregados. Podemos enumerar quatro – zona, zona pressionante, mista (por encaixes) e individual:

Zona (setorizada): a principal referência-alvo é o espaço, e depois os companheiros. Os jogadores movimentam-se coletivamente, buscando manter a organização da estrutura defensiva. O movimento do jogador que pressiona a bola repercute nos demais, que ocupam os espaços próximos.

Para o português Nuno Amieiro, autor de diversos livros e artigos – um em especial chamado “Defesa à Zona” – e ex-treinador adjunto do Porto, este modelo defensivo visa a “ocupar os espaços do jogo de forma inteligente criando superioridade numérica na região da bola como um dos fatores fundamentais para controlar os adversários”.

Amieiro diz ainda que na marcação zonal “a referência alvo de marcação é o espaço, ou seja, nossos jogadores buscam sempre se posicionar nos espaços mais valiosos. E a grande referência posicional é a bola, o que significa que nossos jogadores se movimentam buscando fechar os espaços mais valiosos (espaços próximos à bola e onde ela não pode entrar)”. A defesa zonal é um processo coletivo que mantém a estrutura tática da equipe. Este autor relacionou vários pontos que considera importantes para a conceituação clara da marcação por zona:

– Os espaços são a referência alvo;
– A preocupação é fechar como equipe os espaços mais valiosos, os próximos à bola;
– As referências de posicionamento são a bola e os companheiros;
– Cada jogador de forma coordenada com os companheiros fecha diferentes espaços de acordo com a bola;
– A existência permanente de um sistema de coberturas sucessivas é uma característica vital, escalonando as diferentes linhas;
– É preciso pressionar o portador da bola, para este se ver condicionado em termos de espaço e tempo para pensar e executar;
– A ocupação dos espaços valiosos permite controlar os adversários sem bola;
– Qualquer marcação próxima a um adversário sem bola é circunstancial e consequente da ocupação racional dos espaços.

Para o professor-treinador Jorge Castelo, a defesa por zona provoca menor desgaste físico, permite a obstrução organizada da progressão adversária, com uma linha que força os adversários a contorná-la, e outra que assegura as coberturas. A zona permite ainda, conforme Castelo, a correção de falhas individuais pelo escalonamento de coberturas, e a maior propensão ao contra-ataque.

Entretanto, por vezes é atribuída à marcação por zona convencional uma certa passividade – demasiada atenção aos espaços, conferindo liberdade aos adversários. E, sem uma eficiente pressão sobre a bola, o portador pode achar passes a jogadores desmarcados, com tempo e espaço – tudo o que se deseja na fase ofensiva – para tomar as melhores decisões. Como vemos neste exemplo de “cúmulo da passividade”, com a marcação por zona do Chelsea contra o City:

Zona Pressionante: procura-se criar uma superioridade numérica no setor atacado com maior agressividade na pressão sobre a bola, corrigindo aquela passividade tida como ponto vulnerável da zona convencional. A principal tarefa dos companheiros próximos ao responsável pela pressão ao portador da bola é, dentro do encadeamento de coberturas, fechar as linhas de passe próximas.

Podemos ver o Atlético de Madrid executando a zona pressionante na imagem abaixo – os jogadores agem em função dos companheiros, fechando os espaços entre eles e assim mantendo uma unidade compacta. Mas no lado da bola diminuem-se as distâncias para com os adversários:

É o mesmo processo conceitual da marcação por zona clássica, mas com maior agressividade, atendendo aos conceitos exigidos pelo futebol moderno, de compactação no setor atacado.

Desta forma, o portador da bola recebe pressão e todas as linhas de passe próximas são “fechadas” pelos defensores dentro de seus setores – cada jogador em ação defensiva encurta a distância na relação com seu companheiro, em função da bola e do espaço, e busca fechar as linhas de passe de forma ativa, com ênfase nas antecipações. É um padrão defensivo extremamente difundido entre os clubes europeus. É muito mais uma reinterpretação comportamental da marcação por zona, estabelecendo zonas de pressão e “abraçando” com mais intensidade o setor atacado.

Mista (Encaixes Setorizados): segundo Castelo, a marcação mista é uma síntese de zona e individual, exigindo pressão ao portador da bola pelo mesmo marcador inclusive se o alvo sair de sua zona; isso obriga os companheiros a se colocar em função do homem que pressiona o portador da bola, assim como de adversários que se desloquem nos espaços da zona original deste marcador momentaneamente fora de lugar, estabelecendo coberturas, mas com encaixes setorizados.

Ainda conforme Castelo, esta marcação tem como vantagens estabelecer constantes compensações e trocas, abrindo margem a mais iniciativa e criatividade para os defensores. A marcação mista também cria aos atacantes dificuldade em chegar à superioridade numérica no setor, além de possibilitar a anulação de um alvo mais técnico e qualificado pelo acompanhamento mais próximo de um marcador.

Mas Castelo vê como desvantagens a possibilidade de se abrir espaços, com defensores fora de seu lugar original (estabelecendo combates longe das zonas com as quais estão mais familiarizados); esta marcação mista exige ainda elevado grau de solidariedade e responsabilidade de todos, além de diminuir a eficácia dos contra-ataques, pela desorganização estrutural.

É o que acontece neste lance defensivo do Liverpool contra o Manchester United, com um adversário atacando espaço às costas do lateral que busca um encaixe pouco mais distanciado do seu setor:

A tênue – e muitas vezes subjetiva – diferença deste encaixe setorizado/misto para o encaixe individualizado é a relativa obediência ao setor. Enquanto na primeira não se estabelecem perseguições longas (o marcador acompanha seu “alvo” até um limite de metros estabelecido pelo treinador, depois “transfere” este adversário a um companheiro e retorna ao seu respectivo setor), na segunda – muito comum no futebol sul-americano, em especial no Brasil – os adversários próximos à bola são acompanhados até que a jogada se finalize, mesmo que se movimentem distantes do setor de seu marcador temporariamente individual.

Para o professor português Álvaro Martins, este encaixe individualizado dentro do setor é chamado de “marcação homem a homem”, descrito da seguinte forma:

Cada jogador tem sua zona para cobrir, e quando um adversário nela entra ele passa a ser a referência posicional e referência-alvo do nosso jogador. Mesmo que aqui tenhamos um determinado desenho tático definindo as zonas dos nossos jogadores, ainda trabalhamos em cima da ação do adversário, já que nos posicionamos sempre tentando encaixar com o nosso adversário. É o chamado ‘jogo de pares”.

É curioso que ele conceitue este encaixe de jogo de pares quando se observa as marcações do futebol brasileiro. E digo curioso, para não afirmar que é engraçado, porque sempre chamei este modelo de “dança de salão” – cada marcador acompanhando um adversário até o final da jogada. Para quem olha do alto, ou em câmera aberta, o campo assemelha-se a um salão, com diversos pares formados, distribuindo-se em toda a largura e a profundidade.

Nota-se que ele não acompanhará o mesmo adversário sempre, durante todo o jogo, mas sim aquele que ingressar em sua zona, e daí em diante até o final da jogada. Na próxima ação ofensiva do adversário seu alvo poderá mudar, conforme o comportamento do adversário. Mas a referência individualizada se sobrepõe ao espaço, estabelecendo perseguições, por vezes extremamente longas, distanciando os marcadores de seus setores de origem.

Este é considerado o principal problema: desestruturar a defesa. À medida que o treinador orienta seus jogadores a perseguir alvos fora de setor, ele permite que o próprio time se desorganize, por ser reativo (reage aos movimentos do adversário). E um oponente inteligente pode utilizar estes encaixes para, com movimentos sincronizados, abrir espaços atraindo marcadores para fora do setor e ocupando estas regiões com outros jogadores em projeção, identificando defensores com maior tendência a se distanciar das zonas importantes.

Por outro lado, intensifica-se ainda mais a pressão sobre a posse adversária, com o portador sob forte constrangimento e sem nenhuma linha de passe aberta – cada companheiro está acompanhado de perto. Existem espaços, existe desestrutura, mas não há tempo para decidir nem alvos disponíveis.

Aqui vemos um exemplo dos encaixes individualizados do futebol brasileiro – alguns mais longos, outros mais curtos, mas sempre transformando o campo em um imenso “salão de dança”, ou como bem conceituam os portugueses, em um “jogo de pares”.

O time sem a bola, partindo do 4-4-2 em duas linhas na fase defensiva, permite que seus jogadores distanciem-se de seus setores originais em função da perseguição a seus alvos – o confronto é a final do Mundial de Clubes de 2017, entre Real Madri e Grêmio. Mesmo os adversários longe da bola atraem a atenção de um respectivo perseguidor:

Na imagem acima mesmo os adversários distantes do lado da bola são acompanhados individualmente, como alvos a ser perseguidos. Na prática, o desenho não se desestruturou – time mantém o 4-4-2 inicial, mas absolutamente reconfigurado pela redistribuição de seus jogadores em função das perseguições.

Individual: é obsoleta, praticamente não mais utilizada. A bola, o espaço e os companheiros não são importantes, apenas o alvo individual de cada marcador, que não se altera durante o jogo. Não importando para onde seu alvo movimenta-se, o jogador incumbido de acompanhá-lo estará próximo.

Para não dizer que este modelo está extinto, observou-se que a Campinense utilizou a marcação individual por função no primeiro semestre de 2015 – cada jogador perseguindo um alvo exclusivo, durante todo o jogo, independentemente do espaço ou do posicionamento da bola, como vemos na imagem abaixo, em partida contra o Grêmio, evidenciando a ausência de uma organização estrutural, e o uso de uma “sobra longa” – único jogador sem alvo definido, responsável por monitorar e ser a única cobertura:

O professor Jorge Castelo é um crítico deste modelo de marcação. Acredito que as restrições teóricas dele aos sistemas individualizados aplicam-se tanto ao encaixe individualizado como à marcação individual por função. São eles:

– É a lei do um contra um;
– E uma organização cuja capacidade física é fundamental – provoca alto desgaste físico;
– Tem a responsabilidade individual ao mais alto grau – uma eventual falha individual compromete todo o sistema;
– Cria espaços em zonas vitais do campo defensivo;
– Limita as ações ofensivas – contra-ataque parte de jogadores distribuídos aleatoriamente em campo.

Existe, porém, um ponto chave para o analista no que diz respeito à observação dos métodos defensivos: não tomar partido. Pude ver nesta mais que década de envolvimento com o estudo do futebol (como jornalista, depois como analista) a divisão de profissionais e teóricos em duas “facções”: os defensores da zona (e detratores dos encaixes), e os defensores dos encaixes (e detratores da zona).

Ao analista cabe identificar os comportamentos, contextualizar e transmitir as informações em forma de conteúdo relevante. Tomar partido, associar-se a uma facção, pode contaminar a análise e transformar informação em opinião. Em geral quem defende os processos zonais como única via possível dizem que os encaixes são ultrapassados e facilmente manipuláveis.

Mas no Brasil são a regra, e vimos recentemente clubes como Atlético-MG e Grêmio conquistarem a Libertadores da América utilizando-se de encaixes setorizados e/ou individualizados. Não existe “certo ou errado”, existem meios diferentes – já vimos o sucesso e o fracasso de todos eles, nas mais diversas circunstâncias.

Outro exemplo é o renomado técnico argentino Marcelo Bielsa, fervoroso adepto dos encaixes, que recentemente em palestra promovida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) afirmou categoricamente que sempre projeta a estrutura de seu time sobre a do adversário, criando uma espécie de “encaixe perfeito”.

Inclusive, para isso, tem uma lista de sistemas que devem ser utilizados para sobreposição a cada sistema que ele reconhece. Se o adversário jogar no sistema x, ele escolhe o y, previamente definido como o melhor encaixe de enfrentamento. E muitos de seus seguidores, como o também argentino Jorge Sampaoli, fazem o mesmo – encaixes individualizados em todo o campo, com uma sobra – conquistou duas Copas Américas pela seleção do Chile, que nunca havia sido campeã.

Agora imaginem o analista em um clube, detrator do modelo x, defensor quase cego do modelo y, trabalhando com um treinador que utiliza o método x. Melhor deixar opiniões e preconceitos do lado de fora do setor de análise, guardá-los para as mesas de bar, e na hora do trabalho ater-se a fatos.