Muito da teoria sobre as transições já foi dito no capítulo anterior, que tratou especificamente dos contra-ataques. O que nos permite ser mais objetivo na abordagem dos princípios estruturais e organizacionais da transição defensiva agora.

Vale lembrar que a transição defensiva é o momento da mudança de posse da equipe sob análise passando de ter a bola para perdê-la. A partir deste instante os jogadores precisam também mudar rapidamente de comportamento, saindo da fase ofensiva para buscar – seguindo o modelo de jogo – novamente a posse, além de impedir que o adversário progrida em seu campo.

Rapidamente enumero abaixo os princípios estruturais descritos pelo professor Rodrigo Leitão. São três:

– Densidade defensiva: é a relação entre o número de jogadores que participam da fase de defesa de uma equipe com o número de jogadores que participam do ataque adversário;
– Balanço defensivo: é o número e a forma de disposição dos jogadores defensivos enquanto sua equipe promove um ataque;
– Proporção de defesa: é a relação entre o número de jogadores que participam efetivamente da fase de defesa com o número de jogadores que se preocupam predominantemente com o ataque durante a fase defensiva.

Já nos princípios organizacionais, é possível se ter uma visualização mais clara destes conceitos aplicados em campo. E Leitão relaciona outros três:

– Pressionar o portador da bola: é o que se vê cada vez mais no futebol moderno, muito em função do êxito das equipes treinadas pelo Pep Guardiola. Na Alemanha este processo foi batizado “Gegenpressing”, podendo ser traduzido como “contra-pressão”, ou “pressão ao contra-ataque”.

Assim que o time perde a bola, a primeira “regra” do modelo de jogo é que os jogadores próximos – em especial quem estava com a bola, levando consigo os companheiros mais imediatos ao setor em questão – exerçam forte pressão sobre o adversário. Isso possibilita não apenas que a posse seja rapidamente recuperada, como também atrasa a progressão adversária. Mais uma vez recorro ao Manchester City da temporada 2017/18 como exemplo:

– Recompor-se: neste caso, a referência é a linha da bola. Se no modelo de jogo a ordem principal na transição defensiva é a recomposição, os jogadores priorizam o retorno a seus respectivos setores – dando ênfase à reorganização da linha defensiva. Esse processo pode (ou melhor, deve) estar associado ao anterior: pressiona-se imediatamente e, caso o adversário vença esta pressão, busca-se temporizar (atrasar a progressão) enquanto os demais retornam:

Manter as estruturas: se não foi possível pressionar, alguns treinadores optam por orientar seus jogadores a “correr para trás” na transição defensiva. Permitem que o adversário progrida com a bola, sem pressioná-lo, para guardar a defesa de setor.

Este é um processo menos comum no dito “futebol moderno”, e também mais arriscado ao oferecer tempo e espaço ao adversário. A meta, no caso, é “proteger a casinha”, como podemos ver o City realizar neste lance:

Neste ponto, recorro mais uma vez ao complemento proporcionado pelo artigo do professor Leandro Zago, que também subdivide a transição defensiva em dois momentos. Segundo ele, no 1º momento a equipe pode pressionar o portador da bola ou recompor-se; feita a escolha, caso tenha optado pela pressão imediata, no 2º momento é necessário temporizar ou recuperar a posse; caso a opção tenha sido a recomposição, no 3º momento é hora de proteger o próprio campo e, consequentemente, o alvo (o gol).

Como dito antes, a pressão imediata visa ou à roubada no campo de ataque, ou ao atraso/impedimento da progressão adversária, permitindo que os demais jogadores reorganizem a estrutura defensiva.

Acredito que exista ainda um 4º princípio organizacional, não citado nos artigos/livros que consultei, mas bastante observado na prática: a falta. Não é piada, mas muitos treinadores acreditam que o anti-jogo é uma forma de transição defensiva, referindo-se a ele como “falta tática” para impedir contra-ataques adversários. E, se um time recorre frequentemente às faltas no momento da perda de bola, é necessário que o analista registre este comportamento.

Para encerrar o capítulo, deixo para reflexão esse trecho do artigo de Leandro Zago, ressaltando a importância do treino e da clareza do modelo de jogo para que os jogadores tenham recursos na hora de analisar as possibilidades e, em uma fração de segundos, tomar a melhor decisão:

“Para se treinar as transições defensivas e ofensivas são necessários princípios de jogo bem estabelecidos. Quando recupera a bola a equipe deve saber se é o momento de contra-atacar, tirar simplesmente a bola da zona de pressão, ou alternar entre ambos de acordo com o comportamento do adversário. Ao perder a bola, deve-se definir referências para pressionar o portador da bola rapidamente, reorganizar-se em linhas mais recuadas ou coordenar as duas respostas numa análise rápida da situação que o jogo está propondo. Essa coordenação tem que estar muito bem construída, porque a transição tem como uma de suas características um pequeno tempo para sua ocorrência, não permitindo na maioria das vezes que as dúvidas sejam solucionadas em tempo hábil de resolver o problema”.