Escrevi há poucos anos, nas páginas do saudoso Impedimento, uma analogia entre princípios táticos do futebol e do futebol americano. Afinal, são dois esportes coletivos de progressão no campo adversário, contando com 11 jogadores de cada lado, guardadas as grandes diferenças nas regras e nas medidas do campo (105×68 contra 109×49, respectivamente).

O principal contexto a ser levado em consideração, para mim, é o fracionamento das jogadas no futebol americano – todos se posicionam para o snap (ponto de partida da bola oval), movimentam-se a partir dele,e reconfiguram-se assim que a progressão é interrompida. Já no futebol,  as jogadas sucedem-se e as paradas se dão apenas devido a infrações ou quando a bola cruza as extremidades (saídas ou gols).

Assimilada esta diferença – e seu impacto nos movimentos – ainda assim podemos extrapolar conceitos muito aplicados nos jogos da NFL para o futebol. Se quiserem recordar, entre outros posts neste aqui falei sobre os princípios do nosso futebol, desenvolvidos pelo professor Israel Teoldo.

O que mais me atrai ao assistir às partidas da NFL é a leitura dos espaços, com rotas de recebedores planejadas para atrair marcadores, induzir adversários ao erro e assim abrir espaços para a progressão do alvo principal do quarterback. Um princípio bastante útil no futebol, principalmente sul-americano, onde se praticam as marcações por encaixe (seja setorizado, seja individual): mais de um jogador se movimenta, trazendo consigo o seu perseguidor, enquanto o portador da bola faz a leitura do melhor espaço que se abriu diante desta sincronia de movimentos; escolhido o alvo, executa o passe – seja em profundidade, seja entrelinhas – para aquele que se movimentou na direção do espaço mais relevante, enquanto os marcadores se batem feito baratas.

Vejam como os times da NFL trabalham estes conceitos de mobilidade para atrair marcadores em várias frentes, indução ao erro, leitura de espaços e penetração, entre outros.

No último domingo a ESPN transmitiu um jogaço entre Cowboys e Packers, em Dallas, vencido pelos visitantes no último lance. Até lá, os QBs Dak Prescott (Dallas) e Aaron Rodgers (Green Bay) proporcionaram um espetáculo de inteligência de jogo e tomada de decisão, associados – claro – a companheiros com as mesmas virtudes e ao imenso trabalho tático das comissões técnicas.

Comecemos por esse TD dos Cowboys. Na 1ª figura vemos os Packers marcando em 4-3 com nickel (quatro na linha de scrimmage, três linebackers na secundária – um deles marcando individual o recebedor no slot), mais dois cornerbacks individualizados nas pontas e dois safetys na sobra. Cowboys atacando com 3 recebedores, um tight end para bloquear e um running back ao lado do lançador.

Feito o snap, na 2ª figura, Dak Prescott recorre ao playaction (quando o quarterback finge entregar a bola ao running back, corredor que vem detrás). Este movimento induz os defensores a imaginar que a jogada será terrestre – e os safetys decidem adiantar-se para bloquear a corrida.

Mas Prescott não entrega a bola ao corredor. Ao perceber que atraiu a defesa inteira para a linha de scrimmage, identifica o grande espaço aberto na red zone – para onde dirige-se o corredor que saiu da posição slot (“menos aberto” que os dois wide receivers “ponteiros”). E aí faz o passe para um jogador que, graças ao playaction – e à leitura equivocada dos defensores – está no 1×1 e em vantagem física (mais alto e mais rápido) que seu marcador:

espaco_um

Em outro TD os Cowboys novamente atraíram a marcação dos Packers para a zona central, mesmo sem o uso do “playaction”. A jogada chamada posicionou 8 jogadores na linha de scrimmage, mais o running back recuado. Notem que os 2 safetys (os homens da “sobra”) da defesa distanciam-se do lado direito do ataque dos Cowboys – o “free safety” está recuado, do centro para a esquerda adversária, enquanto o “strong safety” repete o erro de leitura e adianta-se para combater uma jogada terrestre.

O que faz o QB Dak Prescott? Assim que o safety se adianta, faz o lançamento às costas do cornerback adversário, para um recebedor no 1×1, sem cobertura próxima, com grande espaço para atacar a profundidade e em vantagem física – mais veloz e mais alto:

espaco_dois

Duas vezes algozes, entretanto, os Cowboys foram vitimados pelo mesmo princípio logo depois, quando foi a vez dos Packers lançarem iscas aos marcadores para abrir uma situação de 1×1 pelo lado.

O QB Aaron Rodgers também faz uso do “playaction”, fingindo passe para o running back. Este movimento, somado à grande concentração de 7 jogadores na trincheira, atrai os linebackers e safetys dos Cowboys para a frente, buscando interromper uma suposta corrida.

Aí fica fácil para ambos – lançador e recebedor – perceberem o grande espaço às costas dos 4 jogadores observados na 3ª imagem; um ataca a profundidade, o outro faz o passe, touchdown:

espaco_tres

São conceitos muito observados no futebol, onde cada vez mais as equipes trabalham para atrair encaixes de marcação – jogadores que se movimentam não para receber, mas como “iscas” que tiram defensores de lugar e abrem espaços para outros infiltrarem-se.

Ainda em Dallas x Green Bay o próprio QB dos anfitriões correu até a end zone graças a esta combinação de movimentos sincronizados causando desequilíbrio/desorganizando a defesa adversária.

Esta chamada exige grande inteligência do QB, velocidade de raciocínio e de execução, e precisão na hora de tomar a decisão. É a chamada “read option”, situação de corrida com pelo menos duas possibilidades – é o lançador que decide na hora quem vai ficar com a bola.

Primeiro, o Dallas abre 3 corredores para a sua direita, atraindo a atenção de 3 marcadores individuais. Além disso, vejam que o tight end posicionado mais à esquerda da linha de scrimmage (1ª imagem) propositalmente permite que o seu bloqueador ultrapasse-o, dando a ele a ideia de que o caminho está livre para tacklear o portador da bola.

Neste momento, Prescott faz a leitura, na fração de segundos na qual ele encosta a bola oval no peito do running back, que a abraça: se o marcador está vindo na direção do QB, ele entrega para o corredor; se o marcador está vindo na direção do running back, ele fica com ela. Alta sincronia de movimentos e entrosamento. Ilusionismo.

E foi o que aconteceu – Prescott percebe que o marcador dirige-se ao corredor, acreditando estar com ele a bola; aí o QB faz a finta e corre em direção à end zone, onde aquele tight end que saiu correndo está bloqueando a única pessoa capaz de pará-lo. Touchdown baseado em inteligência de jogo e tomada de decisão, duas virtudes que no futebol que nós conhecemos diferenciam os craques dos jogadores médios.

readoption

Já em outra partida, vitória do Seattle Seahawks fora de casa sobre o Los Angeles Rams, também assistimos a um TD baseado na criação de vantagem para o recebedor – deixá-lo no 1×1 com espaço, sem cobertura, e com maior capacidade física.

Com 6 jogadores na linha de scrimmage, 1 running back e 2 corredores abertos na direita, os Seahawks atraem a marcação dos Rams para a zona central, onde concentram-se 10 marcadores. Eles têm certeza que sairá dali uma corrida, ou um passe para a direita.

Mas, na esquerda, o recebedor está em grande vantagem: mano-a-mano, sem ninguém para cobrir o marcador, tendo muito espaço à sua frente e maior capacidade física. O QB Russel Wilson faz um passe “back shoulder”, direcionado ao ombro mais distante do marcador, permitindo que o recebedor proteja a bola oval com o corpo – como um lance de pivô no futebol. Touchdown.

Quantas vezes não assistimos no futebol a uma equipe trocando passes, circulando de lado a outro e assim induzindo a marcação para direcionar-se toda até um setor, quando então vem a inversão longa que pega lá no lado contrário à origem da jogada um atacante no 1×1, sem cobertura próxima, e na iminência de entrar na área, bastando um drible ou uma condução em velocidade para definir em gol?

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Para encerrar, estes bloqueios matadores realizados pelos Jacksonville Jaguars na surpreendente vitória fora de casa sobre os Pittsburgh Steelers. O quarterback está “encostado na parede”, lá no início do próprio campo. Mas, graças a 5 bloqueios realizados na esquerda – um deles com o right guard deslocando-se até seu lado contrário – abre-se uma avenida para o corredor atravessar 90 jardas sem ser incomodado.

É algo que pode (e já é, em muitos times) ser utilizado em lances de bola parada no futebol, seja contra marcações individuais, seja por zona (bloqueadores abrem espaço para o alvo da batida atacar a bola sem ser tocado):

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Touchdown de ponta a ponta lembrando que o futebol americano é um esporte altamente tático, extremamente complexo e acima de tudo COLETIVO. Todos cumprem seu papel na jogada, como operários, sem ambicionar brilho individual acima daquele que vai levá-los a pontuar.