Assistir às equipes treinadas por Guardiola é acompanhar uma diversidade infindável de cenários – embora sempre alicerçados em dominação, controle, imposição e obsessão pelo gol. A partir desta ideia ele molda suas equipes conforme as características dos jogadores disponíveis, o estudo do adversário, as circunstâncias do confronto…conforme o contexto, enfim. Não é refém de uma distribuição rígida – até porque recorre a modelos híbridos, permitindo ao espectador identificar diferentes desenhos nas fases ofensiva e defensiva.

Nesta temporada ele tem partido de duas plataformas. Em 9 jogos oficiais foram 6 com posicionamento inicial em 4-1-4-1 (ou 4-3-3 para os puristas); noutros 3 confrontos ele aplicou o 3-1-4-2 (ou 3-5-2, como queiram) – sistema preterido a partir da 5ª rodada da Premier League.

O mais interessante para mim, entretanto, não é a alternância entre dois sistemas iniciais, mas sim a semelhança entre a organização ofensiva destas duas plataformas: sempre partindo da “saída de 3” com um jogador à frente, formando praticamente um losango para a construção das jogadas – a primeira fase da posse de bola.

Este relatório produzido pela empresa Wyscout apresenta o 3-1-4-2/3-5-2 utilizado na estreia fora de casa contra o Brighton:

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São 3 zagueiros, 1 volante, 2 meias, 2 alas abertos e 2 atacantes centralizados; já no confronto mais recente, contra o Chelsea, a base foi o 4-1-4-1/4-3-3 – a tradicional linha defensiva de quatro com 2 zagueiros e 2 laterais, 1 volante, 2 meias, 2 extremos/pontas e um atacante de referência.

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Partindo do 3-1-4-2, a construção com 3 homens não exige nenhum movimento. Na prática, os jogadores mantêm seus posicionamentos iniciais, apenas projetando-se no campo adversário – ainda mais sendo este mais fraco, e conhecedor de suas limitações ao permitir que Guardiola praticasse o jogo de imposição ofensiva e absoluto controle da posse no campo de ataque:

ataque_brighton

Os 3 zagueiros estão no ataque, tendo o volante Fernandinho à frente (como se fosse um losango para a saída de bola); os 2 alas estão em amplitude máxima simultânea (bem abertos, “pisando na linha” ao mesmo tempo) e em profundidade (adiantados, na linha dos atacantes).

Além disso, os 2 meias e os 2 atacantes projetam-se, formando um quarteto de intensa movimentação no corredor central, entre as linhas, alternando quem recua para buscar, quem ataca a profundidade (infiltração), quem aproxima do ala com a bola para criar triângulos, enfim…aplicando com intensidade os princípios do jogo ofensivo já conhecidos pelos frequentadores do blog.

Parêntese ao assunto do post (a semelhança entre a saída de 3 partindo de dois sistemas iniciais diferentes): olhem a tensão que provoca sobre o adversário atacar praticamente com uma linha de 6 jogadores em profundidade, tendo 2 abertos e 4 centralizados – ainda por cima com a qualidade técnica e a inteligência de Silva, De Bruyne, Gabriel Jesus e Aguero. É caso para os zagueiros pedirem adicional por insalubridade!

Na prática, como já disse, todos estão nas suas regiões de atuação delimitadas pelo sistema tático. Agora vejam a fase de construção da organização ofensiva contra o Chelsea, partindo do 4-1-4-1:

ataque_chelsea

Também uma saída de 3 (o zagueiro Stones está fora da imagem); e, ao contrário do jogo contra o Brighton, envolvendo uma complexa movimentação sincronizada:

  • o lateral-direito Walker fecha na linha do zagueiro Otamendi para ser o 3º homem, com Stones por trás deles;
  • o lateral-esquerdo Delph (meia de origem) fecha pela frente do volante Fernandinho, na linha do meia De Bruyne;
  • o meia-esquerda Silva adianta-se e centraliza;
  • os 2 extremos (Sterling e Sané) são os responsáveis pela amplitude máxima simultânea, atuando extremamente abertos e adiantados, na linha do atacante de referência Gabriel Jesus.

Na prática, com a bola o City saiu completamente da base em 4-1-4-1 para organizar-se no velho 3-4-3 com meio-campo em losango da escola holandesa, muito utilizado na década de 90 por Barcelona e Ajax com Cruyff e Van Gaal, por exemplo, e mais recentemente lembro o Atlético Nacional de Osório fazendo o mesmo, assim como La U e Seleção do Chile com Sampaoli, e diversas equipes de Marcelo Bielsa.

Contra um time mais forte, ele conta com menos jogadores em profundidade sobre a linha defensiva adversária, mas compensa com mais jogadores no corredor central, controlando o setor sem perder a agressividade. Na amplitude, ao invés dos alas do 3-5-2, estão os extremos – mais incisivos e com maior capacidade de vitória pessoal.

Se a gente for “viajar na maionese geométrica” podemos ver 3 sucessivos losangos nesta organização ofensiva: o inicial, formado pela saída de 3 mais Fernandinho; o intermediário, com Fernandinho, Delph e os dois meias; e o final, com Silva, os extremos e o atacante.

Escrevo apenas para ilustrar que na análise tática os sistemas iniciais são o que o próprio nome diz – pontos de partida, apenas – e que o relevante é identificar movimentos, sincronias e padrões de comportamento. Afinal, são dois sistemas diferentes, com jogadores de características diferentes, que levam ao mesmo propósito na fase de construção – a saída de bola.

Já na organização defensiva as semelhanças acabam. Do 3-5-2 o City variou para defesa em 5-3-2 contra o Brighton, enquanto contra o Chelsea sem a bola a equipe retornava ao posicionamento inicial em 4-1-4-1, como se percebe nas imagens abaixo:

defesa_brighton.png

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Encerro lembrando que o mesmo City, com o mesmo Guardiola – na temporada passada – e partindo do mesmo 4-1-4-1 apresentou-nos uma saída de 3 diferente (já falei disso no blog noutra vez): ao invés de fechar um lateral como o 3º homem, recuou o volante central, fechou os 2 laterais como armadores tendo os 2 meias à frente, mantendo extremos em amplitude máxima – um 3-4-3 com meio-campo em quadrado (ao invés de losango), voltando no tempo ao W.M de Herbert Chapman no Arsenal dos anos 30:

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Guardiola, enfim. Sempre uma aula, e uma inspiração.