Certa vez em uma conversa com o Flávio Murtosa, da qual participavam também Luiz Felipe Scolari e Ivo Wortmann, o consagrado auxiliar de Felipão sentenciou algo curioso, ao analisarmos um futuro adversário que partia inicialmente do sistema 4-2-3-1:

– Esse 4-2-3-1 é um quadrado para a direita.

Enquanto Felipão e ele debatiam sobre a nomenclatura – o treinador inclinado a aceitar esse desdobramento em quatro faixas, argumentando que eram três jogadores alinhados à frente dos volantes, e o auxiliar dizendo que era um quadrado pendendo para o lado com um atacante recuando no lado oposto – eu fiquei pensando no que acabara de ouvir. Faz sentido sim, principalmente quando analisamos as equipes que nas décadas de 80 e 90 atuavam utilizando-se do 4-4-2 em quadrado como suas estruturas básicas.

Estou produzindo um material para projetos vindouros, analisando em vídeo seleções e times sob as mais variadas distribuições dos jogadores em campo. E, ao observar a Seleção Brasileira de Telê Santana na Copa de 82, bateu o estalo: o Murtosa tinha razão.

Qual ideia sustenta a tese de Murtosa? Alguns 4-2-3-1’s (era o caso do futuro adversário analisado à época da conversa) utilizam em uma das extremas um jogador mais agudo, um atacante de origem, enquanto no outro lado está um meio-campista, seja criativo, seja dinâmico – um exemplo recente é o Grêmio campeão da Libertadores 2017, com Pedro Rocha/Fernandinho/Éverton na ponta-esquerda, e o volante de origem Ramiro na direita. Para o auxiliar de Felipão, portanto, continua sendo o 4-4-2 em quadrado, movendo as peças para o lado direito, enquanto o segundo atacante recua pelo lado oposto.

Pois vejam a Seleção neste jogo contra a Argentina pela Copa de 82. Era um quadrado, tendo Falcão e Cerezo à frente da linha defensiva, os meias Zico e Sócrates sucessivamente depois desta dupla, Éder como segundo atacante e Chulapa na referência. Ignorem, entretanto, a marcação feita na imagem abaixo, e vejam como Éder, Zico e Sócrates formam uma linha de 3 meias. Seria, modernamente, considerado um 4-2-3-1? Ou, como alertou Murtosa, era um quadrado para a direita?

Era um sistema extremamente “fluído”, mas essa fluidez é sempre lembrada apenas na fase ofensiva – jogadores com alta mobilidade, trocas, liberdade de movimentação e de criatividade. Mas era também fluído defensivamente. A cada segundo é possível flagrar um desenho diferente. Nunca, entretanto, consegui ver o desenho que ficou no imaginário coletivo – o 4-2-2-2…esse “quadrado” não acontecia, de forma alguma, sem a bola. Na imagem acima Sócrates e Éder recuam pelos lados, com os volantes fora da imagem por trás. Hoje chamaríamos de 4-2-3-1, mas fiz a marcação do “ponta-esquerda” associada ao centroavante para notarmos como a figura elaborada pelo Murtosa faz sentido.

Como o 4-2-3-1 atual marca, em geral? Formando duas linhas de 4. Por vezes era o que acontecia com o Brasil – e já posso adiantar que observei o mesmo comportamento na Seleção de 70, em jogo que também estou analisando, com Rivelino e Jairzinho nas pontas alinhados a Clodoaldo e Gérson, com Pelé e Tostão à frente (diversos momentos de marcação em duas linhas de quatro, antes mesmo do reconhecimento desta estrutura):

Noutras vezes, devido a encaixes, ou quando Sócrates – muito mais envolvido nas ações defensivas do que Zico – estava por dentro, podia se desenhar um 4-1-4-1, com o camisa 8 dando suporte a Cerezo e Falcão na proteção aos zagueiros. Papel que foi muito importante nesse confronto com a Argentina que, partindo de um losango, projetava o enganche e os carrilleros sobre os dois volantes brasileiros, deixando-os em dificuldades. Ao recuar por dentro, Sócrates restabelecia a igualdade:


À medida que o adversário progredia, entretanto, os marcadores abertos iam abandonando a fase defensiva. Quem menos contribuía sem a bola era o 10 Zico quando ele estava pela direita. A partir da intermediária, ele e Éder (este um pouco mais comprometido em marcar) iam deixando o trabalho todo para os volantes e a linha defensiva. Muitas vezes o Brasil defendia, à frente da área, apenas em 4-2, por vezes contando com Sócrates para fazer um 4-3. O que sobrecarregava Falcão, Cerezo, zagueiros e laterais, e abria espaços a infiltrações adversárias.

Nesta sequência, Sócrates e Zico iniciam a abordagem, com os volantes andando sempre muito juntos, mas o 11-Kempes se projeta por trás do camisa 10 brasileiro e com o 10-Maradona ataca as costas de Falcão, criando uma oportunidade de gol quando ainda estava 0x0:

Na prática era um risco calculado. Defender no bloco baixo com somente 6 ou no máximo 7 jogadores deixava no mínimo 3 à frente para iniciar os contra-ataques. Não por acaso, neste confronto com a Argentina, os 3 gols da vitória se originaram de transições ofensivas. No 1º deles Zico, totalmente alheio à fase defensiva, está livre e recebe o primeiro passe após a roubada, aciona Chulapa que, derrubado, sofre a falta que resulta em gol de Zico no rebote do míssil disparado por Éder:

Com encaixes, perseguições e compensações, era um sistema tão aberto às decisões individuais na fase defensiva quanto na ofensiva. Vários formatos, várias estruturas, mas no imaginário apenas a fluidez ofensiva ficou marcada. Como vemos nestes lances, com o lateral-esquerdo 6-Júnior – por exemplo – conduzindo por dentro, ou o volante 15-Falcão atacando a profundidade e deixando o 8-Sócrates em seu lugar mais recuado:

Voltando ao Murtosa…o Grêmio dos anos 90, dele e do Felipão, era um quadrado…Carlos Miguel e Arílson (depois Emerson) à frente de Dinho e Goiano, tendo Paulo Nunes como segundo atacante e Jardel na referência. Muito parecido com a estrutura da Seleção de 82, mas invertendo o lado…era um quadrado para a esquerda, com o ponta destro recuando pela direita.

Um quadrado para a esquerda…mas, se olharmos com os olhos “de hoje”, não era um 4-2-3-1?

Estão todos certos, acredito. Cada um sob a sua perspectiva, mas descrevendo na prática a mesma coisa.