Identificar padrões de comportamento. Este é o principal objetivo da análise tática, o mantra que norteia todo o processo de observação, anotação, interpretação, análise, contextualização e transmissão das informações. E não há mistério nesta premissa, afinal, as equipes de futebol têm modelos de jogo elaborados por seus treinadores e construídos nos treinamentos.

Em resumo, padrões de comportamento são ações que se repetem. E se repetem porque são treinados. Analisar taticamente uma equipe é decifrar as orientações transmitidas pelo técnico aos jogadores, interpretar estas ideias e assim descrever os princípios do modelo de jogo em questão. Como se aquele time de futebol tivesse uma linguagem própria, e o analista traduzisse os diálogos, decodificando aquele idioma.

É preciso destacar que os comportamentos dos jogadores e das equipes, quando observados várias vezes e no confronto com diferentes oponentes, são suscetíveis de exibir traços que permitem identificar padrões de jogo. Se um time é observado durante uma sequência de jogos, estes padrões ficarão ainda mais claros, evidenciando no conjunto de informações as ideias que integram o modelo de jogo.

O treinador português Carlos Carvalhal, referência na construção da escola de acadêmicos do futebol em Portugal, autor (entre outros) do livro Futebol – um saber sobre o saber fazer… escreveu o seguinte (antes de tudo, vale ressaltar que este e-book não é acadêmico, portanto, as referências e citações não são formais):

O guia de todo o processo de treino deverá ser o modelo de jogo adotado, estando este dependente de um sistema de relações que vai articular uma determinada forma de jogar, não uma forma de jogar qualquer, mas subjacente a uma estrutura específica“.

Equipes bem orientadas contam com um microciclo de treinamentos voltado a atividades complexas, que reproduzem em cada trabalho os princípios que alicerçam o modelo de jogo. São regras que induzem os jogadores a tomar decisões dirigidas em cada ação da partida.

O já mencionado professor português Julio Garganta, doutor em Ciência do Desporto e, talvez, o mais relevante pensador do futebol moderno, escreveu dezenas de artigos, teses e livros que interligam a academia à prática, traduzindo para nós esta relação entre os treinamentos, o modelo de jogo e a consequente identificação de padrões de comportamento:

O treinador como principal responsável de todo o processo de treino, assume a função de construir um modelo de jogo para a sua equipe elaborando os princípios que deseja ver respeitados pelos seus jogadores”.

Parece complicado, mas é simples. Os princípios são guias que orientam os jogadores na hora de tomar decisões. Exemplo superficial: modelo de jogo voltado à valorização da posse de bola ofensiva, tendo como alguns princípios e sub-princípios a criação de triângulos com movimentação, aproximações e execução de passes curtos e rápidos. Os treinos serão elaborados com atividades que massifiquem estas ideias para que no jogo os atletas reproduzam-nas, e os analistas identifiquem-nas.

Outro pensador-treinador-teórico português de referência na área do futebol de alto rendimento, o professor Jorge Castelo aborda o tema em diversos livros, entre eles o “Futebol – atividades físicas e desportivas”:

Os princípios de jogo estabelecem um quadro de referências para os jogadores, orientando o pensamento tático dos mesmos e, consequentemente, o comportamento tático-técnico com vista à resolução eficiente das diversas situações que a competição em si encerra”.

De início, o mais importante é educar-se para separar as circunstâncias de jogo dos padrões de comportamento. Futebol é movimento, e por vezes toda a ordem treinada à exaustão é insuficiente para lidar com uma situação, dando espaço à aleatoriedade. No entanto, a ocorrência de ações circunstanciais não atrapalha a análise porque, obviamente, elas não se repetem. E, se padrões de comportamento são ações reiteradas, não é difícil peneirar o que é fruto de treino, e o que é ocasional.

Sobre este dilema o professor Julio Garganta escreveu no artigo “Futebol e Ciência. Ciência e Futebol”:

Os comportamentos dos jogadores e das equipes, embora repousando sobre uma organização sustentada numa isonomia de princípios (os mesmos princípios valem para todos) movem-se entre dois pólos: o vínculo, ou seja, o estabelecido, as regras; e a possibilidade, a inovação.

Dentro das comissões técnicas, a análise de desempenho serve para auxiliar o treinador no planejamento de treinos. Diagnosticando padrões de comportamento da equipe nos jogos e nas atividades prévias, o técnico pode avaliar quais ações estão correspondendo ao trabalho da semana, e quais outras precisam ser otimizadas, o que interfere positivamente no microciclo de treinos.

Assim como na análise dos futuros adversários o treinador poderá adaptar-se a virtudes e potenciais vulnerabilidades do oponente, orientando os jogadores a se prevenir ou a explorar determinados comportamentos observados no modelo de jogo rival.

Falando em modelo de jogo, recorro a mais um treinador-professor-pensador da escola portuguesa que tem colaborado para a alta produção de conhecimento sobre futebol, José Guilherme Oliveira:

O Modelo de Jogo consubstancia-se na construção de um conjunto de princípios de jogo referentes aos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições) e idealizados pelo treinador”.

Podemos sair de Portugal e encontrar referências teóricas em outros países. O professor-pesquisador argentino Pablo Juan Greco abordou em um de seus artigos o papel do jogador na leitura destas informações:

Em cada ação o jogador avalia as possibilidades de êxito e prepara mentalmente a ação a realizar em função da antecipação do comportamento dos adversários e da ação que os companheiros preveem realizar nesse contexto”.

Algo parecido disse o professor francês Jean Francis Gréhaigne, também especializado na produção de conteúdo teórico sobre o treinamento no futebol:

“Face a uma situação de jogo, cada jogador privilegia determinadas ações em detrimento de outras, estabelecendo uma hierarquia de relações de exclusão e de preferência, com implicações no comportamento da equipe enquanto sistema. Assim, a equipe constitui uma totalidade em permanente construção, na qual as ações pontuais, mesmo que aparentemente isoladas, influem no comportamento coletivo”.

“Em permanente construção”, escreveu Gréhaigne. Isso reforça a ideia de que os times de futebol são “organismos vivos”, cujos órgãos/jogadores relacionam-se em sincronia. Boas equipes unificam o pensamento de todos chegando ao estágio em que o pensamento é coletivo, é único.

Compreende-se, com isso, que os jogadores nos treinamentos são estimulados a tomar decisões de acordo com o modelo de jogo e seus respectivos princípios, interpretando as ações dos adversários e dos companheiros a cada momento, para assim estabelecer seus movimentos e gestos técnicos dentro de um plano.

Desta forma, amparado pelas referências teóricas, mas também pelo aprendizado com a experiência ao observar uma infinidade de situações em cada partida, o analista tático precisa estar preparado para traduzir todo este conjunto de informações e entregá-las de forma clara ao consumidor final – seja ele a comissão técnica e os jogadores, caso seja analista de desempenho, seja ele o público em geral caso seja jornalista.