Com o objetivo de contribuir para o debate durante a Copa do Mundo 2018, mapeei a origem de todos os gols marcados. Embora baseado nos mesmos critérios utilizados quando fazia o mesmo ao analisar futuros adversários quando vinculado a clube de futebol, este estudo dos gols é mais resumido e superficial.

A principal intenção é separar o estilo de ataque: organização ofensiva com posse trabalhada (seja posicional ou “funcional”), organização vertical (ataque rápido ou ataque direto), contra-ataque (apoiado ou rápido/direto) ou bola parada. E, dentro de cada uma destas categorias principais, identificar o tipo de jogada que foi fundamental na criação da oportunidade de finalização: nas jogadas de bola rolando, se a origem foi cruzamento, infiltração, individual, entre outras; e, nas bolas paradas, se foi escanteio, falta lateral, pênalti, etcétera.

Durante a Copa, entretanto, muitos formadores de opinião em redes sociais (jornalistas e blogueiros, principalmente) passaram a buscar rótulos para determinar o perfil da competição, tentando encaixar um estilo predominante, uma tendência ou algo do gênero. Mas estes carimbos vinham apenas de impressões pessoais, muitas vezes motivadas pela emoção do momento e confiando na memória (afetiva), sem base de dados para sustentar tais diagnósticos. Com isso, mapeei também a origem dos gols marcados na Copa do Mundo 2014, possibilitando assim uma análise comparativa para auxiliar quem se interessar pela identificação de padrões ofensivos.

Houve uma pequena redução no total de gols marcados – 169 em 2018, contra 171 há quatro anos. Mas o que mais chama a atenção inicialmente é a relevância das bolas paradas na atual edição: 72 gols partindo de cobranças de algum tipo de bola parada, contra 50 em 2014:

Este gráfico ressalta ainda, além da maior relevância das bolas paradas, o aumento dos gols em organização ofensiva na Copa do Mundo 2018, enquanto em 2014 a predominância foi de gols em ataques rápidos, diretos, ou em contra-ataques. Podemos fazer esta comparação com maior clareza nos gráficos abaixo:

Observa-se que em 2014, as jogadas que podemos agrupar como “ataques verticais” representaram 70,3% dos gols marcados de bola rolando, enquanto em 2018 caíram para 52,6% – quase 20 pontos percentuais a menos. Este agrupamento reúne os ataques rápidos, os ataques diretos e todos os contra-ataques.

Cruzando estes dados com a observação dos jogos pode-se relacionar algumas hipóteses para explicar esta diferença, todas elas carecendo de maior investigação e detalhamento para se confirmar (não são excludentes, pelo contrário):

  • Melhor compactação defensiva em bloco médio/baixo na Copa 2018, resultando em ocupação mais eficiente dos espaços relevantes – bloqueio à própria área e ao gol;
  • Melhor transição defensiva, tanto no balanço defensivo (relação entre jogadores que atacam e que permanecem atrás da linha da bola), quanto na pressão imediata após a perda;
  • Ataques mais conservadores/pacientes diante do primeiro cenário listado (defesas compactas à frente da área em bloco baixo), conservando a posse para provocar desequilíbrios e aproveitá-los, evitando acelerar demasiadamente sob risco de sofrer contra-ataque;
  • Por outro lado, na Copa de 2014, organizações defensivas buscando maior pressão média/alta sem sucesso, cedendo espaços a ataques verticais; além disso, comportamentos menos eficientes na transição defensiva (tanto em balanço como em pressão pós-perda).

Dentro da sub-divisão das jogadas de bola rolando, chama a atenção o grande uso de cruzamentos para se chegar ao gol em 2014, com representativa queda em 2018:

No total, em 2014 foram 46 gols originados em cruzamentos, sendo 24 deles (mais da metade, portanto) em contra-ataques; já em 2018 foram 28 gols em cruzamentos, sendo apenas 3 em contra-ataques. Há quatro anos as equipes encontraram mais espaços para chegar ao lado da área em condições de criar oportunidades de gol.

E, não apenas isso – talvez até o aspecto mais importante – mesmo quando permitiram ao adversário alcançar o terço final pelos lados, as seleções que disputaram a Copa de 2018 podem ter defendido melhor a área, com mais jogadores, melhor posicionados, concentrados e portanto mais eficientes nas rebatidas e bloqueios.

Já no cenário das bolas paradas, parece ter havido um grande impacto do VAR no aumento significativo destes gols. Isso porque a diferença nos escanteios e faltas laterais é pequena: em 2018, são 26 gols originados em escanteios e 15 em faltas laterais, contra 25 e 9 na Copa de 2014.

Mas nos pênaltis convertidos, muitos deles assinalados com a ajuda da tecnologia, a diferença é muito maior – apenas 12 há quatro anos (1 em toque de mão e 1 em “agarrão”) contra 23 neste ano (8 em toques de mão e 4 em “agarrões”).

Estes são apenas alguns dados colhidos neste mapeamento superficial, assim como algumas hipóteses oriundas da comparação tanto dos números como da observação dos jogos (sempre o aspecto mais importante da análise). Para encerrar, abaixo as planilhas brutas com os dados colhidos – primeiro, a Copa 2018, depois, a de 2014.

Qualquer dúvida sob os critérios utilizados, fico à disposição para esclarecimento. Da mesma forma, quem quiser utilizar os dados sinta-se à vontade, basta creditá-los à Performance – Análise de Desempenho.